segunda-feira, julho 31, 2017

Hilbebrando e a onça

Hildebrando e a onça
Por Paulo Botelho
Muitos anos já se passaram desde o ocorrido. Foi em um tempo que os animais quase falavam e os homens ainda ouviam.
Era um bar bem limpo de propriedade do alemão Franz Kolbe, de Santo Amaro – São Paulo; e Hildebrando Bueno um assíduo frequentador. Um lutador de boxe, peso-médio de forte direita, conhecido como goiano era, também, frequentador daquele bar.
O boxeador chegava sempre, no final da tarde, acompanhado de uma onça-pintada, já adulta, com peso em torno de 130 quilos. As onças-pintadas possuem dentes fortes e afiados; sua mordida é considerada devastadora. De todos os felinos é o animal que tem o mais aguçado faro. Dizem, os mais entendidos, que ela é capaz de perceber – só pelo cheiro – se uma pessoa é boa ou má. As mais-ou-menos ela ignora.
Criada, desde filhote, a onça era sempre conduzida pelo boxeador em uma grossa coleira de couro curtido, muito resistente. Acho que é desnecessário dizer que o animal era de estimação. E era, também, uma onça agradável, de bons modos – não resmungava, nem rosnava – mas, como ocorre com os animais, costumava fazer cocô em qualquer lugar. É claro que isso causava um efeito um tanto prejudicial para o bar do Kolbe.  Da maneira mais educada possível, Kolbe pediu ao goiano que não levasse mais a onça para dentro do bar. Mas, no dia seguinte, lá estava ele com a onça. Nesse dia o animal descarregou um montão no chão do bar; os fregueses se dispersaram e Kolbe voltou a fazer o pedido. Dia seguinte, a mesma coisa.
Percebendo que aquilo era uma questão vital para Kolbe, Hildebrando resolveu tomar uma atitude: assim que a onça fez mais um “serviço”, ele agarrou o boxeador pelo pescoço, carregou-o para fora do bar e atirou-o na rua. – Voltou para dentro do bar, pegou a onça pelas duas orelhas e arrastou-a para fora.
Da calçada, a onça lançou um triste olhar para Hildebrando, mas foi embora calada com o boxeador. Se representou ou não uma ameaça para ela, ninguém até hoje soube explicar.
Acredito que se fosse nos dias de hoje, e se a onça estivesse por perto, o predador-bilionário Joesley Batista não teria a menor chance com o seu cheiro!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário