sexta-feira, julho 17, 2015

Por um Pouco de Paz

Ai vai mais um artigo escrito pelo Paulo Botelho (Debanda)
Por um pouco de paz
Paulo Botelho
Neste país não aprendemos por soma. Por multiplicação, nem pensar!  Temos aprendido a aprender por subtração ou por perdas e danos. Mas, foi lá em minha distante adolescência, quando vivia aprendendo, que conheci um verdadeiro multiplicador; um Quixote do Meio Ambiente. Surdo-mudo, pequeno e frágil, chamava-se Alcides. Nada se sabia de seus pais, irmãos, parentes, seu sobrenome. Expulsava os gambás dos galinheiros e roçava as ervas  daninhas ao redor das sedes das fazendas em troca de um caldo de feijão, um pedaço de pão, uma pousada. Ia sobrevivendo de roça em roça no eixo Cabo Verde - Monte Belo, em Minas Gerais. Certo dia, logo ao amanhecer, acenou, pedindo à dona América Bueno Alves, dois ovos, uma porção de farinha de trigo, açúcar, manteiga e leite. – Misturou tudo com uma colher de pau e levou ao forno de lenha para assar. – Até hoje eu sinto o cheiro e o sabor daquele bolo tão gostoso! Assim, dessa maneira, ele expressou sua gratidão pela acolhida de minha bisavó. Alcides foi um multiplicador do meio-ambiente sustentável. Ele era capaz de chorar para impedir a morte de um animal;  de lutar para evitar a derrubada de uma árvore. Alcides sabia o que sente uma árvore quando está sendo cortada, pois o cabo do machado é da madeira de outra árvore. – Mas, com a rapidez – e a estupidez – de hoje, uma árvore não percebe de onde vem o material que fabrica a motosserra que a detona!
Mia Couto, escritor moçambicano, em seu livro “O Último Vôo do Flamingo” tenta entender o que ocorreu com o seu país cuja história coletiva foi consumida pela ganância dos poderosos e, também, pela ignorância cívica de seus habitantes.  Ele relata a história dos flamingos que desapareceram para sempre de Moçambique; justamente esses pássaros reconhecidos como anunciadores da paz e da esperança.
Como os flamingos, Alcides não mais habita esse planeta tão insustentável.  Entretanto, ainda têm  nele pessoas capazes de somar e fazer multiplicar os moinhos da criatividade humana com suas pás. – Das pás dos moinhos à paz na Terra!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br


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