terça-feira, abril 14, 2015

Para não deixar de caminhar

PARA NÃO DEIXAR DE CAMINHAR
Paulo Botelho
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos; ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? – Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Eduardo Galeano, escritor uruguaio.
“Os meus pulmões estão endurecendo, mas tenho que continuar trabalhando, pois tenho muitos clientes!”  -  É o que me dissera Ildefonso, o dono daquela concorrida marmoraria. Portador de silicose irreversível, contaminou-se – ele e seus operários – com sílica, matéria-prima empregada em marmorarias, além de fábricas de tijolos refratários muito utilizados em siderúrgicas e, também, em churrasqueiras. Falei-lhe, na ocasião do nosso contato, que ele deveria procurar isolar as fontes de poeiras dos mármores umedecendo o ambiente com água. Quando lá voltei para ver o resultado, Ildefonso só faltou me beijar dizendo que a sugestão solucionara o problema. Todavia, meses depois, soube de seu falecimento aos 48 anos de idade. Toda doença, basicamente, vem a ser doença do trabalho; tanto as físicas como as emocionais ou espirituais. Desde a Revolução Industrial, até poucas décadas atrás, apenas alguns cientistas – isolados e não ouvidos – alertaram para os perigos da contaminação e da alteração ambiental. A opinião que prevalecia – e prevalece ainda hoje – é aquela surrada: “Temos que pagar o preço do progresso”. O preço inaceitável é a existência da contaminação que consiste na difusão de fatores patogênicos da produção para o ambiente externo (do trabalho para o consumo) por meio de materiais perigosos como a Sílica ou Asbestos, entre outros; contaminadores também do ar, da água e do solo. O absurdo incêndio de vários dias nos tambores de combustíveis do Porto de Santos é o pior, e mais recente, dos exemplos. Os custos humanos e materiais, até agora, não foram avaliados e divulgados. E aí fica a pergunta: O que faltou fazer lá? – Resposta: Faltou a aplicação continuada da Metodologia Kaizen (Melhoria); do Seiri (Organização) e do Shitsuke (Disciplina) ingredientes básicos da filosofia de gestão que os japoneses praticam há quase cem anos.
Paulo Augusto de Podestá Botelho é professor, escritor e consultor de empresas; associado-docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br

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