segunda-feira, setembro 08, 2014

O Lobo e o Carneiro

O  LOBO E O CARNEIRO

Por Paulo Botelho

O que faz uma pessoa querer devorar a vida dos outros? – É a fome do prazer em  humilhar!” Thich-Nhat-Hana, monge e mestre vietnamita.

Duas e quinze da madrugada de uma fria e chuvosa segunda-feira na cidade que dorme. O telefone da Dedetizadora  Cometa toca já em seu terceiro toque. É o plantão de atendimento do técnico Hildebrando Bueno que assumira o plantão às 10 da noite do domingo e deveria concluí-lo naquela segunda às 7 da manhã.  “Desentupidora Cometa, bom dia, atendente-técnico Bueno, às suas ordens!” – “Não é assim que se fala!” A correção vem de uma voz metálica, irritada, do outro lado da linha. Mesmo não se identificando, Bueno reconhece a voz do dono da Cometa, Milton Carneiro. “Agora, repita de forma certa o que foi ensinado a você!” –  “Bom dia, Desentupidora Cometa, atendente-técnico Bueno, às suas ordens!” – “Não é deste jeito que se fala com o cliente. Eu desisto! – Você vai falar agora com a dona Maria Eduarda!” – “Bueno, o Sr. Milton está muito irritado e quer que você treine direitinho comigo, ok? – Vamos lá, você deve dizer ao interlocutor o seguinte: “Muito bom dia, Desentupidora Cometa, atendente-técnico Bueno, às suas completas ordens! –  Fique calmo e não se esqueça mais, está bem?”  Encerra Maria Eduarda com sua voz aveludada. Maria Eduarda, a Duda, secretária de mesa e cama de Milton Carneiro estava com ele naquela madrugada em algum lugar do Rio de Janeiro (Prefixo 21).  - Simples demonstração de poder – e talvez de ereção – conclui Bueno lá com os seus botões!

Hildebrando Bueno, inteligente e organizado, de sólida formação superior, estava se sujeitando a trabalhar para a Cometa por conta de boa comissão em atendimento e execução de reparos, enquanto tomava providências para retornar ao mercado de trabalho em sua especialidade: Gestão da Qualidade e Logística Reversa.  
Milton Carneiro, baiano de Brumado, crescera brincando ao redor da imensa mina de sílica de propriedade de Antonio Ermírio de Moraes, o dono do Grupo Votorantim. O jovem Milton desembarcara em São Paulo, nos anos 70, como tantos migrantes nordestinos, aboletado em cima de um caminhão. Bigodes de pontas retorcidas, como os do valete de espadas, olhar estratégico e rastreador dos lobos, exibia, também, uma barba cerrada e grisalha a esconder o rosto, lembrando a figura do analfabeto funcional e  farsante Paulo César de la Vila, um desafeto de Bueno.

Não temos concorrência em desentupimento. Desentupimos colunas, esgotos, pias, ralos, vasos sanitários. Desentupimos com tecnologia própria americana (sic), utilizando cabos flexíveis e ponteiras especiais”, dizia a propaganda veiculada pela Cometa. Mas, o detalhe da sacanagem era amplamente conhecido em todo o entorno da rua Luis Góes, Vila Mariana, sede da Cometa em São Paulo: “Os atendentes-técnicos, quando em operação, devem enfiar e retirar sacos bem sujos de estopa pelos encanamentos, simulando completamente os entupimentos, sem que os clientes percebam. Esta jogada é muito forte, muito convincente!”- É o que garantia o lobo Carneiro, levantando o focinho e abanando o rabo! - É claro que, além de Bueno, outros poucos atendentes-técnicos de conduta ética, não estavam de acordo com tais práticas repetidas nas reuniões de treinamento.

Logo na segunda-feira, às 7 da manhã, Hildebrando Bueno conclui o seu plantão e não mais voltou à Limpadora Cometa.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é professor, escritor e consultor de empresas.