sábado, maio 31, 2014

O PT, algumas mazelas e o ano eleitoral.



O pesadelo de Gabeira na Serra da Canastra

REPASSANDO !!!
 
Quem diria...!

Gabeira teve um pesadelo com o PT na Serra da Canastra...
FERNANDO GABEIRA - O Estado de S.Paulo

       

As coisas andam esquisitas. Ou sempre estiveram, não sei. Dia agradável de trabalho na Serra da Canastra, revisitei a nascente do São Francisco e vi uma loba-guará se movendo com liberdade em seu território. De noite sonhei com o PT. Logo com o PT.
Sentei-me na cama para entender como os pesadelos do Planalto invadiam meus sonhos na montanha. Lembrei-me de que no início da noite vira a história de André Vargas e do doleiro Alberto Youssef na TV, os farmacêuticos do ar que vendiam remédios dos outros ao Ministério da Saúde. Pensei: esse Vargas é vice, no ano que vem seria presidente da Câmara dos Deputados. Como foi possível a escalada de um quadro tão medíocre? A resposta é a obediência, o atributo mais valorizado pelos dirigentes, antítese de inquietação e criatividade, sempre punidas com o isolamento.
Vargas fazia tudo o que o partido queria: pedia controle da imprensa e fazia até o que o partido aprova, mas não ousa fazer, como o gesto de erguer o punho na visita do ministro Joaquim Barbosa, do STF, ao Congresso. Em nossa era, esse deputado rechonchudo, que poderia passar por um burguês tropical, simboliza o resultado catastrófico da política autoritária de obediência, imposta de cima.
Num falso laboratório, com o nome fantasia de Labogen (gen é para dar um ar moderno), Vargas e Youssef tramavam ganhar dinheiro vendendo remédios ao ministério. O deputado, que ocupava o mais alto cargo do PT na Câmara, trabalhava para desviar dinheiro da saúde!  É um tipo de corrupção que merece tratamento especial, pois suga recursos e equipamentos destinados a salvar as pessoas. A corrupção na saúde ajuda a matá-las.
A catástrofe dessa política autoritária se revela também na escolha de Dilma Rousseff para suceder a Lula. Sob o argumento de que os quadros políticos poderiam abrir uma luta fratricida, escolheu-se uma técnica com capacidade de entender claramente que Lula e o PT fariam sua eleição. A suposição de que o debate entre candidatos de um mesmo partido seria ameaçador para o governo é uma tese autoritária. Nos EUA, vários candidatos de um mesmo partido disputam as primárias. E daí?
Lula sabia que um quadro político nascido do choque de ideias seria um sucessor com potencial maior que Dilma para ganhar luz própria. E a visão autoritária de Lula - sair plantando postes nas eleições, em vez de aceitar que novas pessoas iluminassem o caminho - contribuiu para a ruína do próprio PT.
Tive um pesadelo com o PT porque jamais poderia imaginar que chegasse a isso. Os petistas, aliás, carnavalizaram uma tradição de esquerda. Figuras como André Vargas erguem os punhos com a maior facilidade, como se estivessem partindo para a Guerra Civil Espanhola na Disneylândia. E os erguem nos lugares e circunstâncias mais inadequados, como num momento institucional. Um vice-presidente não pode comportar-se na Mesa como um militante partidário. O correto é que tivesse sido destituído do cargo depois daquele punho erguido. Mas o PT e seus aliados não deixariam o processo correr. Eles são fortes, organizados, bloqueiam tudo. Será que essa força toda dará conta do que vem por aí?
Estamos em ano eleitoral e Dilma, nesse cai-cai. É compreensível que as esperanças se voltem para Lula como salvador de um projeto em ruínas. Mas como salvar o que ele mesmo arruinou? O esgotamento do projeto do PT é também o de Lula, em que pese sua força eleitoral. Ele terá de conduzir o barco num ano de tempestades.
Para começar, essa da Petrobrás, Pasadena e outras saidinhas. O vínculo entre Youssef, Vargas e a Petrobrás também está sendo investigado pela Polícia Federal. Mas a relação do doleiro com o governo não deveria passar em branco. Num dos documentos surgidos na imprensa, fala-se que Youssef estava num delegação oficial brasileira discutindo negócios em Cuba. Por que um doleiro num delegação oficial? Por que Cuba?
Muitas novidades estão aparecendo. Mas essa do André Vargas, homem influente no partido, um farmacêutico do ar que neste momento deve estar erguendo os punhos no espelho, ensaiando para ser preso, interrompeu meu sono em São Roque de Minas com uma clara mensagem: o PT é um pesadelo.
Tenho amigos que ainda votam no PT porque acham ser preciso impedir a vitória da direita. Não vejo assim o espectro eleitoral. Há candidatos do centro e da esquerda. Que importância tem a demarcação rígida de terrenos, se estamos diante de fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política?
Cai, cai, balão, não vou te segurar. Estivemos juntos quando os petistas eram barbudos e tinham uma bolsa de couro a tiracolo. Mudou o estilo. Agora têm bochechas e um doleiro a tiracolo. Naquela época já pressentia que não ia dar certo. Mas não imaginava essa terra arrasada, um descaminho tão triste.
É um consolo estar nas nascentes do São Francisco, ver as águas descendo para a Cachoeira Casca Danta: o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente. Sei que essa é uma ideia antiga, de muitos séculos. Mas para mim sempre foi verdadeira. É o que importa.
Uma das grandes ilusões da ditadura militar foi interromper a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade. A virtude do processo democrático é precisamente estimular as pessoas a que aprendam por si próprias e evoluam.
As águas de 2014 apenas começaram a rolar. Tanto se falava na Copa do Mundo como o grande teste e surge a crise da Petrobrás. Poucos se deram conta de que, com os sete mortos nas obras dos estádios brasileiros, batemos um recorde de acidentes em todas as Copas. De certa forma, são vítimas da megalomania, do ufanismo, de todas essas bobagens de gente enrolada na Bandeira Nacional comprando refinarias no Texas, deixando uma fortuna nas mãos de um barão belga que nem acreditou direito naquela generosidade. Ergam os punhos cerrados para o barão e ele responderá com uma merecida banana. Gestualmente, é um bom fim de história.

Veja vários vídeos de canto gregoriano nesta playlist:

terça-feira, maio 27, 2014

De um Caderno Antigo

Aí vai mais um artigo enviado pelo Paulo Botelho (Debanda), nosso colega do Enfrades - grupo de ex-seminaristas franciscanos.

De um Caderno Antigo
Por Paulo Botelho
“A casa, a montanha, as nuvens do céu, e um sol a sorrir no papel”. O Caderno, de Chico Buarque.
Já plenamente alfabetizada aos 8 anos, minha neta Rebeca veio me visitar dia desses. Pegou para ler um artigo técnico sobre Gestão da Qualidade que eu acabara de compor. Surpreso com a leitura, falei: É só você que lê, não é mesmo? – “Mas, por quê, vovô, só eu que leio”? 
Lembrei-me, então, de um velho caderno Avante, daqueles com a letra do Hino Nacional na contracapa. – Lá estavam os meus garranchos – a lápis – dos tempos de colégio. Minha desistência de treinar e jogar basquete, não obstante os meus 1.78 de altura fora substituída por ler e escrever nas horas vagas. Quando decidi pela literatura fiquei a um só tempo alegre e com uma sensação de vazio. Já sabia, então, que qualquer coisa – boa ou má – deixa um vazio quando acaba. Se é má, o vazio se enche por si mesmo; se é boa, só se pode enchê-lo encontrando alguma coisa melhor. Ler e escrever, então, foi o que consegui encontrar de melhor. Mas, melhorar, ainda era muito difícil de acontecer no Colégio Estadual de minha cidade. E eu lia, compulsivamente, os clássicos que o médico e filósofo Samuel de Assis Toledo me emprestava de sua ampla e diversificada biblioteca: Shakespeare, Poe, Proust, Joyce, Machado de Assis e Hemingway, entre outros. E constatei que não há literatura sem leitura. Primeiro leitura, depois literatura. Mais que uma arte, a literatura é uma energia, uma ferramenta para mudar – ou tentar mudar o mundo; se é que isso seja possível!
Ficou registrada, no Caderno Antigo, a existência de um professor de Português, recém-saído de um seminário de padres. Andar ereto e duro de meio-galope, tinha a cara de quem comeu e não gostou mas, também, de quem continuaria a comer – e muito. Nada de técnicas gramaticais consta lá que aprendi com aquele ferrabrás. Posteriormente, já na faixa dos 30, constatei a sua meteórica ascensão social e política, por conta dos arbítrios da ditadura militar, período em que tudo de ruim passou a ser possível no Brasil. Ele acabou sendo nomeado vice-governador biônico do meu Estado de Minas Gerais!
- Espero que Rebeca tenha melhores e mais alegres lembranças da vida registradas em seu já colorido caderno!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. WWW.paulobotelho.com.br