terça-feira, junho 24, 2014

O Vinagre e o Fel de Hildebrando.

O VINAGRE E O FEL DE HILDEBRANDO

Por Paulo Botelho

“Tenho sede! – Havia ali uma jarra cheia de vinagre misturado com fel. Amarraram num ramo de hissopo uma esponja embebida e a levaram à sua boca. – Ele bebeu e disse: Tudo está consumado! – E inclinando a cabeça, entregou o espírito”. Do Evangelho Segundo São João.

O emprego conquistado era tudo o que Hildebrando Bueno almejara. Cargo: Gerente de Desenvolvimento da Empresa; Remuneração: Compatível com as melhores do Mercado de Trabalho. E mais: tornou possível a compra do sonhado apartamento de 3 quartos.
Aos 52 anos de idade e mais de 20 de experiência profissional, Hildebrando estava apto a trabalhar com afinco na resolução dos problemas da Refratarium. – E que problemas! Logo de cara, ele estivera muito preocupado com a situação de saúde de Dimas Cruz da Silva, um Operador de Máquinas. Portador de Silicose, Dimas fora contaminado por ingestão contínua de Sílica Livre (matéria-prima da produção da empresa) com quadro de fibrose pulmonar irreversível. Assim como Dimas, a Refratarium conseguira, de forma irresponsável e desumana, reunir um passivo trabalhista com cerca de 60 trabalhadores contaminados. Seis meses após o ingresso de Hildebrando na Refratarium, Dimas morre deixando mulher e quatro filhos ainda pequenos.
Toda terça-feira, pela manhã, Hildebrando tinha encontros funcionais com o seu superior hierárquico: Anacleto Sacanelli, Diretor-Executivo da Refratarium. Nesses encontros, Hildebrando buscava dissecar ou analisar a cara do chefe. Mas, apenas os olhos sobressaiam: fugidios, sinistros, falsos, pareciam os olhos de um estuprador frustrado; outras vezes, pareciam os de um asno, obediente e submisso a seus patrões. Em um desses encontros, Hildebrando lembra ter visto Anacleto com os mesmos olhos cheios de lágrimas, a dizer, com voz embargada: “Toda Sexta-Feira da Semana Santa vou à Catedral da Diocese de São João Del Rei, minha terra natal, e fico de joelhos lembrando toda a dor do sofrimento de Jesus Cristo na Cruz!”
Mas, foi em um dia qualquer bem frio de julho; um daqueles dias sem cor, cinzento e branco, que Hildebrando chamaria de um dia administrativo, porque dá a impressão de que nada de interessante ou de grave pode acontecer numa atmosfera tão pálida e sem graça. – Por volta das 10 da manhã, Anacleto vai até a sala de Hildebrando na fábrica e diz: “Sua situação no cargo foi para o vinagre!” – “Mas, por quê? -Pergunta, chocado, Hildebrando. – “Não tem um porquê. – Você deve deixar a Refratarium dentro de 10 dias!” - Responde, seca e friamente, Anacleto.
Por mais paradoxal que possa parecer, Anacleto Sacanelli, depois de trabalhar com fel, hoje trabalha com mel. É Diretor Geral da Apiarium, uma empresa situada no Interior do Estado de São Paulo. Ele diz, com entusiasmo, numa entrevista a uma revista técnica: “Estamos atingindo um nível de competitividade internacional, evoluindo de um sistema de produção por batelada de 250 toneladas/mês”.
Hildebrando disse que ficou lembrando de Anacleto quando viu a foto dele na revista. – “Fazia tempo que não o via tão bem apessoado: ele só está um pouco calvo e um pouquinho mais gordo!”

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. www.paulobotelho.com.br

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