sexta-feira, abril 06, 2012

O Dia do Homem


Leia esta crônica escrita pelo Eduardo Machado 

Certa vez fiz um comentário num programa de rádio do qual participava citando o verso de uma canção de Pepeu Gomes que diz “ser um homem feminino não fere o meu lado masculino...”.
O assunto surgiu por causa de outra música, cuja letra analisávamos,“Super Homem, a canção”, onde Gilberto Gil diz: “um dia, vivi a ilusão de que ser homem bastaria. Que o mundo masculino tudo me daria, do que eu quisesse ter...”.
Os homofóbicos de plantão na mesa do debate riram de lado e, no intervalo, fizeram as costumeiras e previsíveis piadinhas de sempre.
Deixei prá lá. Passei da idade de me preocupar com a mediocridade preconceituosa, ainda tão presente entre nós. Mas o episódio me fez pensar sobre minha relação com os gêneros masculino e feminino.
Vivi e vivo uma contradição. Venho de uma família masculina. Somos seis irmãos, dos quais sou o mais velho. Esperei cinco vezes por uma irmã, que não veio. Fui criado junto a sete primos, seis homens e uma menina. Uma, em meio a doze marmanjos! Quando for pai, pensei, tiro a diferença. Qual nada. Parei no terceiro filho, desconfiado de que na minha genética não há cromossomo X.
Na vida profissional, outra realidade. Professor convive o tempo todo com um ambiente de trabalho marcado pelo universo feminino. Entro na sala do café e, em geral, a mesa está tomada por elas. Sinto-me “o bendito fruto entre as mulheres!”.
Essa é a minha rotina. Tal qual o Sílvio Santos, vivo rodeado pelas minhas colegas de trabalho. Entre elas, sou um homem que está sempre aprendendo que novos tempos estão chegando ou chegaram de vez. E não foi só no calendário. As pessoas estão mudadas. O ritmo da vida é outro.
Às vezes me pergunto se as mudanças são pra melhor ou pra pior. Quando ligo o computador e tenho o mundo ao alcance das mãos, em tempo real, num click, fico pensando como conseguia trabalhar antes de existir essa maravilha. Saio e pego meu carro, ou melhor, sou pego pelo engarrafamento, ouço no rádio os programas policiais vespertinos, acompanho na TV as manchetes que anunciam o último crime e suspiro desanimado.
Certamente algumas coisas que vieram com os novos tempos não são bem vindas. O trânsito caótico, a violência, a corrupção escancarada, o consumismo desenfreado. Doenças antigas foram erradicadas e voltaram a nos assustar. Outras, novinhas em folha, desafiam a Ciência e seus muitos recursos. Na verdade, a gente pode até navegar na Internet e falar com um amigo, na Austrália, mas ainda morre de picada de pernilongo.
É, realmente os novos tempos são bem contraditórios e confusos.
Mas, em meio a tudo isso, uma mudança parece que veio pra ficar. E pra ficar melhor: o papel, o lugar e o valor da Mulher.
Ela ocupa, cada vez mais, espaços antes reservados ao universo masculino, em especial no mundo do trabalho e até na Política. Na última eleição presidencial no Brasil, duas mulheres foram as estrelas. Uma delas foi eleita para exercer, pela primeira vez na História, o mais alto cargo do país.
A nova mulher é mais que feminista. Ela não busca se igualar ao homem naquilo que ele tem de pior: promiscuidade, arrogância, autoritarismo e violência. Ela quer e pode ser o que sempre foi seu destino, desde o Gênesis: companheira.
Nesses novos tempos o homem teve que aprender a dividir tarefas para que fosse possível multiplicar a presença e os cuidados com a casa, o lar, os filhos, a família. Se a mulher teve que sair de casa para assumir-se mais inteira, como profissional, como cidadã, o homem teve que encontrar o caminho das prendas domésticas. O ideal seria que isso acontecesse sem culpa ou vergonha para nenhum dos lados. Nem feministas, nem machistas, o que vale agora é a sensibilidade generosa que complementa o outro. O resultado pode ser fantástico quando homens e mulheres se encontram como companheiros.
Nesses novos tempos, onde vive essa nova Mulher, é preciso deixar nascer um novo Homem. Livre do peso de não poder chorar, de ter que aguentar todas as barras, de ser durão quando a vontade é correr para o colo da mãe, o Homem vai, finalmente, descobrir a beleza de ser companheiro, de deixar a sensibilidade falar mais alto que as máscaras repressoras do machismo.
Por tudo isso, proponho que passado o Dia da Mulher ELAS nos ajudem a comemorar o Dia do Homem. Que nos convidem para um jantar a dois, que abram a porta do carro, puxem a cadeira, cubram-nos de gentilezas e atenção.
Afinal, toda mulher sabe o quanto é frágil e carente o homem que ela tem ao seu lado.
E, não podemos nos esquecer, foi uma mulher que segurou Deus no seu colo e o chamou de “meu filho...”
A elas, o nosso Amém!


Hoje acordei com saudades da irmã que não veio,
da filha que não tive.
Saudades, enfim, do feminino em mim...”


         Eduardo Machado
                        8 de março de 2012


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