sexta-feira, novembro 18, 2011

Invasão

Leia esta crônica tirada do blog do Eduardo Machado: Sobre todas as coisas. Visitem o blog dele pois sempre tem crônicas inteligentes e assuntos interessantes .

Invasão

De repente, o “caveirão” invade a praça dos três poderes, em Brasília, seguido pelo batalhão do BOPE, soldados armados, amados ou não.

Mais atrás, dando cobertura, a Polícia Militar e um pelotão de repórteres, cinegrafistas, todos ávidos por registrar o momento histórico. Promotores, procuradores, o pessoal do ministério público, alguns populares incrédulos, fecham a fila da invasão.

A coluna segue em direção ao Congresso Nacional. Não há resistência. Nas janelas dos ministérios surgem algumas bandeiras do Brasil e até uma tímida chuva de papel picado.
Um helicóptero, do alto, filma a debandada pelos fundos do congresso. Um corre-corre generalizado, a pé, em carros oficiais e até ônibus que transitavam pelo local. Num zoom, a câmera flagra o momento exato em que um ministro é atingido por uma denúncia, cai e é arrastado por um suplente de senador até alcançar a traseira de uma pickup que foge em disparada.
A repórter da Globo, em seu modelito azul, à prova de balas, entra no ar, ao vivo, após a vinheta de “JN-Edição Extra” e anuncia:
“O povo brasileiro invadiu, ocupou e está retomando, hoje, o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios, depois de décadas de domínio por parte da elite da bandidagem. Vários meliantes foram vistos em fuga para suas bases. Não temos ainda notícias confirmadas sobre o paradeiro de SarNem, o chefe do tráfico de influência na região. Dizem que foi visto entrando no porta-malas de um carro com imunidades parlamentares que seguiu em direção ao aeroporto de Brasília.
Vários dos seus comparsas também evadiram-se do local, alguns com a proteção de assessores e policiais que, segundo denúncias, faziam parte do esquema”.
Um pacato cidadão, vendo as imagens da debandada pela TV, na vitrine de uma loja, cantarola:
"Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão. Se gritar pega ladrão, não fica um..."
Em seguida, em entrevista coletiva, os responsáveis pela operação dizem que, após fazer o rescaldo nas duas casas do congresso e nos ministérios será instalada em frente ao Palácio do Planalto, bem visível, uma UPP (URNA à PROVA de PILANTRAS), o que deve garantir não só a retomada definitiva da área pelo povo brasileiro, mas também a possibilidade de reconstrução, a partir daí, do país e da Nação.
Uma passeata improvisada começa a se movimentar pelo Eixo Monumental.
Poetas delirantes, profetas embriagados, uma romaria de mutilados, infelizes, fantasiados, meretrizes, bandidos e desvalidos, meninos desembestados, todos, em coro, cantam o mesmo hino:
“A gente não quer só polícia, a gente quer polícia e felicidade.
A gente não quer só polícia, a gente quer polícia e Educação!
A gente não quer só polícia, a gente quer polícia e Saúde!
A gente não quer só polícia, a gente quer polícia, Ética e respeito pela coisa pública!
A gente não quer só polícia, a gente quer polícia e um Judiciário que se faça respeitar e respeite o cidadão!
A gente não quer só polícia, a gente quer polícia e Dignidade para todos!
A gente não quer só polícia, a gente quer polícia e Fraternidade!
A gente não quer só polícia, a gente quer inteiro e não pela metade”.
E, olhando na cara do pacato cidadão, capricham no refrão:
Você tem sede de que? Você tem fome de quê?

Mais notícias, nas próximas eleições.
Eduardo Machado
Novembro de 2011
 
 Veja este vídeo com música do Medwin Goodall.

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