quinta-feira, setembro 15, 2011

Defunto no ventilador

Se o que dá pra rir dá pra chorar, o que dá pra chorar também pode nos fazer rir. Nesse caso, a recíproca é mais que verdadeira. E eu, que venho de uma família que adora rir e não tem nenhum pudor em chorar, vivo atento a essas situações ambíguas, em que o cotidiano se mostra cenário de dramas que podem, facilmente, resvalar para a comédia.

Não é que falte respeito. É apenas um jeito de levar a vida e suas mazelas, com mais leveza. Aliás, nossas lembranças mais tristes acabam se transformando, se houver leveza e sabedoria, em ocasião de riso ou, ao menos, sorriso. Quantas e quantas vezes já ouvi alguém dizer: “relaxe, você ainda vai rir disso...”. E é fato.

Quase 25 anos atrás vivi um grande susto, quando dormi na minha cama e acordei numa UTI; infarto agudo! À época, tudo era dor, medo, insegurança e apreensão quanto ao futuro. Hoje, já vivendo naquele futuro que temi não acontecer, me permito recordar situações cômicas vividas naquela UTI.

Os muitos amigos padres que me visitaram, as muitas unções e bênçãos que recebi, a curiosidade dos médicos com aquele infartado de 33 anos, meu irmão que invadiu a UTI na marra para me ver, eu mexendo nos fios ligados ao meu corpo, disparando o alarme só para ver a polvorosa das enfermeiras...

Hoje tudo é uma lembrança leve, mas naquela época...

Estas e outras tantas situações me ensinaram que o cotidiano é rico de cenas assim; quase tragédias que viram quase comédias. Pouco tempo atrás vivi uma delas.

Aconteceu num passeio ao distrito de Casa Branca, um pedacinho do céu que fica próximo à minha Belo Horizonte. Aliás, sempre que vou lá fico na dúvida se quem batizou minha cidade de “Belo Horizonte” estava diante de um pôr-do-sol na Serra da Piedade ou no Mirante do Morro dos Veados, lá em Casa Branca.

O mirante fica num platô, no alto da Serra da Moeda, de onde se pode ver BH inteirinha. Um espetáculo gratuito da natureza, assim como o belo horizonte da serra da Piedade e outros tantos ao redor da capital dos mineiros que, como eu, gostam de estrada, montanha e trem de ferro.

Aliás, falando em infarto e trem de ferro, no meu aniversário o Alexandre, meu irmão, me deu uma camisa com os seguintes dizeres: “mineiro não tem infarto, tem um trem no coração...”

Viu, era pra chorar e a gente acaba rindo...

            Mas eu estava lá, no mirante, contemplando a paisagem ao lado de outros admiradores. Bem à beira da montanha, no limite do abismo que se abre sob nossos pés, havia um grupo que me pareceu ser uma família. E era. Num determinado momento eles se deram as mãos e rezaram um Pai Nosso e uma Ave Maria. Todos em volta se calaram, em respeito.

            Ao final da prece, uma senhora que parecia ser a mãe desembrulhou um pano onde havia um jarro. Rezaram mais um pouco, em voz baixa. Alguns soluçaram, e se abraçaram. Só então percebi que o jarro era uma urna funerária que continha, certamente, as cinzas de alguém daquela família.

Entre nós, testemunhas daquele momento, o silêncio se aprofundou. O jarro passou de mão em mão entre os membros da família. Cada um disse alguma coisa baixinho, a modo de despedida. Então, de volta às mãos da senhora e do marido, o jarro foi destampado e ela, num gesto largo, atirou as cinzas no vazio do abismo.

E aí, diz a Bíblia, o vento sopra onde quer...

Pois bem, justo naquela hora o vento cismou de soprar, e forte, na direção contrária àquela em que foram jogadas as cinzas. Já dá pra imaginar a cena...

Todo mundo, inclusive nós, que não tínhamos nada com isso, correndo, tossindo, esfregando os olhos, o rosto, a boca, a roupa, cuspindo e espanando cinza pra todo lado. A sobriedade contrita da cena acabava no ridículo daquele salve-se quem puder.

De volta ao carro, ainda espanando os restos do falecido, aquele silêncio constrangedor de ambiente de elevador. Por pouco tempo. Logo uma gargalhada contagiou todo mundo quando comentei com meu companheiro de viagem:

“Jogaram defunto no ventilador...”



Esta crônica foi tirada do Blog do Eduardo Machado, que já enviou alguns artigos e que já foram publicados aqui no Blog do Tachinha. O blog do Eduardo chama-se: Sobre Todas as Coisas

Veja este belo vídeo da Dança das Mil Mãos apresentada na cerimônia de encerramento dos Jogos Paraolímpicos de Pequim, em 2008.



Nenhum comentário:

Postar um comentário