quinta-feira, outubro 22, 2009

A Sintaxa de Indecência

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo Paulo Botelho (Debanda)

A Sintaxe da Indecência

Por Paulo Botelho

"A minha tristeza é só feita de fatos, de sangue nos olhos e lama nos sapatos".
Minha Fortaleza, de Chico Buarque.
Estava lá, na primeira página do jornal, a manchete: "Bolachas de lama viram opção por falta de comida". "Em Porto Príncipe, no Haiti, tudo é de todos, inclusive o chão de terra que os haitianos do local pisam e transformam em alimento", dizia a nota da manchete. Entre as casas de zinco e ruelas com esgoto ao ar livre, mulheres vendem sob lençóis pequenas massas redondas cuja receita é lama, água e óleo. Elas ficam expostas ao sol por algumas horas e depois são levadas ao forno e prontas para o consumo!
Quase que igualmente, no nordeste brasileiro, calangos são caçados e vão direto para a panela dos esfomeados habitantes do sertão sergipano! A fome é o mais grave de todos os indicadores de indigência e discriminação social. Inúmeras guerras dispersas pelo mundo, pobrezas políticas, meio-ambientes desfavoráveis e qualquer tipo de cultivo, distribuições irregulares de terra propiciam o aumento do número de pessoas que sofrem desse mal.
Haiti e Brasil têm fome, também, de direitos (educação, saúde, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e, sobretudo, assistência aos desamparados). Nessa ordem, essas palavras são a base do Artigo 6 da Constituição Brasileira, onde aparecem como direitos sociais de cada cidadão brasileiro. São direitos humanos que devem ser reclamados a todo instante pela enorme quantidade de pessoas desrespeitadas diariamente nesse país injusto.
Os 10% mais endinheirados do Brasil têm nas mãos 75,4% da riqueza nacional o que corresponde a 45,3% do Produto Interno Bruto. O lucro líquido do Bradesco - uma das mais vorazes instituições financeiras do Brasil - cresceu 21% em relação ao primeiro semestre de 2008 e totalizou R$1,250 bilhão. - Eis aí a ordenação, a arrumação, a sintaxe da indecência estrutural da ordem social deste país! Cultua-se o dinheiro, o verdadeiro deus da nossa época - um deus indiferente às pessoas, inimigo da arte, da cultura, da solidariedade, da ética, do espírito, do amor. Um deus que se tornou imensamente destrutivo. E que é insaciável: a acumulação da riqueza abstrata é, por definição, um processo sem limites.
Existem 4 bilhões de cédulas de 1, 2 e 5 reais circulando no mercado popular brasileiro. O que isso significa? Significa que cédulas de 10, 20, 50 e 100 reais estão circunscritas à população de melhor poder aquisitivo, o que representa apenas 30% da população.
O que se fez? Elegemos presidente da República um intelectual, um poliglota, parecia que tudo entraria nos eixos, mas deu no que deu. Agora temos um líder sindical operário, um monoglota, que só foi comer pão aos 7 anos de idade, e que era da confiança de quase toda a nação, mas, na verdade, está muito longe da expectativa criada. E o que pode acontecer? Não sei. O que assusta é que falta ao Brasil eleger um fanático religioso, um fundamentalista. Um bispo caga-regras da CNBB ou uma bispa de Igreja Evangélica! Agora mesmo, neste outubro, a pequena cidade de Aparecida acaba de receber 300 mil pessoas em sua impressionante basílica nacional. Um total de 150 mil hóstias foram consumidas! Com as devidas proporções, como já disse Gilberto Gil, “o Haiti é mesmo aqui”!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário