segunda-feira, junho 08, 2009

Artigo do Eduardo Machado: Milagre Eucarístico: nós ao redor da mesa.

Leia, abaixo, mais um artigo enviado pelo Eduardo Machado, coordenador de Pastoral do Colégio Imaculada e participante do programa do José Lino na Rádio Itatiaia - FM 95,7 em Belo Horizonte.

Milagre eucarístico: - nós, ao redor da mesa -

Com a aproximação do próximo feriadão, a festa de Corpus Christi, começam a circular pela rede, junto com as ofertas de pacotes turísticos, mensagens que lembram os chamados milagres eucarísticos. Uma delas, que recebi esses dias, traz o relato do milagre de Lanciano, no qual uma hóstia transformou-se em carne e o vinho em sangue. As relíquias são conservadas até hoje na cidade italiana. A este, outros relatos se assemelham.
Sou daqueles que acredita que Deus tudo pode, mas detesta milagres. Penso que sua ação entre nós é muito mais ordinária do que imaginamos. O extraordinário é raro. E frequentemente desnecessário. Milagres, para mim, acontecem o tempo todo, mas por outras vias, de outra maneira...
Rezava, por esses dias, a 1ª Carta de Paulo aos coríntios. No capítulo 12 ele compara a Igreja a um corpo que tem muitos membros. E finaliza dizendo:
“Vocês são o corpo de Cristo...”.
Em mim acontece o milagre da memória que reza. Volto no tempo e no espaço, à igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Lagoinha, 50 anos atrás...
A igreja está cheia, as pessoas de joelhos, e, lá no altar, o padre Candinho ergue bem alto a hóstia e depois o cálice. Campainhas e sinetas tocam. Homens de terno e mulheres de véu, todos, em respeitoso e cerimonioso silêncio, curvam as cabeças diante do mistério da nossa fé. E como havia mistérios...
Desde menino, fui ensinado a ver o momento solene da consagração como o centro da celebração eucarística. O apóstolo Paulo me convida a ir além. Se somos o “Corpo de Cristo”, celebrar a Eucaristia é, portanto, celebrar a Igreja em comunhão que somos chamados a ser, “por Cristo, com Cristo e em Cristo...”.
Continuo remexendo minha memória de menino. Lembro-me de uma ocasião em que a paróquia ficou toda agitada. Naquele fim de semana haveria missa cantada. Do alto dos meus seis anos, pergunto à minha mãe o que era isso. Afinal, em todas as missas que eu ia havia cantos. Ela me explica que aquela missa seria toda cantada.
Fiquei com o pé atrás: essa missa ia demorar...
E demorou mesmo, quase duas horas. Uma missa diferente das que eu freqüentava nos domingos comuns. Fiquei curioso em saber o porquê daquele aparato todo. Ao lado da minha mãe, eu ia perguntando e ela explicando. Ou tentando...
A celebração tem início com um coroinha entrando pelo corredor balançando pra lá e pra cá um negócio que minha mãe disse chamar-se turíbulo. Dele saía uma fumacinha. A igreja toda ficou impregnada por um perfume gostoso. “Incenso”, cochichou dona Tutu...
O padre que entrou logo atrás da fumacinha também era diferente. Usava um chapéu esquisito, pontudo, e trazia na mão uma espécie de bengala comprida, com a ponta em curva. Minha mãe, paciente, explicou que ele era um bispo, seu chapéu uma mitra e a bengala chamava-se báculo. Quanta novidade!
A celebração realmente foi toda cantada. Achei bonito, mas demorou demais. É que a partir de um certo momento o estômago começou a reclamar, pois, naquele tempo, a gente tinha que ir para a missa em jejum, se quisesse comungar. Eu ainda não havia feito a primeira comunhão mas pegava carona no jejum.
Mas valia a pena esperar...
Em casa, depois da missa, eu sabia que me aguardava uma mesa onde havia, com certeza, café passado na hora, leite queimado, broa de fubá, uma vasta variedade de biscoitos; fritos, escaldados e torcidinhos, bolacha, pudim de pão, tudo fruto da ternura culinária das “muitas mães” da minha família.
E o depois da missa virava festa, com todos reunidos em volta daquela mesa, numa alegria domingueira que se esticava pela semana afora.
Pois é justamente para um outro milagre que acontecia ao redor daquela mesa que o meu olhar se volta. E convido você a olhar comigo.
Não sei se você reparou, mas o altar é uma mesa de refeição que ao longo do tempo foi sendo estilizada. Imagino a mesa comum, das primeiras comunidades cristãs, ainda clandestinas, nas casas das famílias. Em silêncio, repartem o pão.
Depois, com o cristianismo assumindo o lugar de religião oficial do império romano, o altar vai ganhando espaços arquitetônicos imponentes. As grandes catedrais medievais realçam o poder dos papas.
Dos altares barrocos das igrejas históricas, até os templos modernos dos nossos dias, é possível perceber a evolução artística e litúrgica em torno do sagrado. Meu amigo e mestre, Rodrigo Faleiro, pode dar uma bela aula de Artes sobre isso, pois, na vida, tudo ensina.
O convívio com o poder tirou a eucaristia da mesa da comunidade, deslocando o altar para bem longe do povo, lá em cima, como podemos conferir nas igrejas históricas ainda preservadas. O lugar onde ficava o altar era isolado por uma balaustrada de onde o padre celebrava de costas para a assembléia e em latim! O Concílio Vaticano II trouxe a mesa de novo para perto da comunidade.
Se eu fosse arquiteto e me coubesse desenhar o projeto de uma igreja, hoje, colocaria o altar e o ambão, de onde se partilha o alimento da palavra, no centro do templo. Ao redor deles, mesas de refeição, a comunidade se reuniria para celebrar e se lembrar, claro, da última ceia de Jesus com seus amigos. Deveria ser uma noite de festa, aquela quinta-feira. Transformou-se em memória viva, herança e convite.
Mesa é sempre um convite. Em torno dela as pessoas se reúnem e não é só para comer e beber. Aliás, o homem talvez seja o único animal que come sem estar com fome e bebe sem estar com sede. O ato de estar à mesa é, para nós, simbólico. A etimologia pode nos ajudar a entender melhor.
Simbólico vem do grego. É a junção de duas expressões: "Sin", quer dizer junto, perto, ao lado. E "Bolós", que significa movimentar, trazer, bailar.
Assim, SIMBÓLICO, numa tradução livre e ligeira quer dizer: trazer para perto, para junto...
Interessante que, em oposição, a palavra diabólico, também é a junção de duas expressões; "Dia", que quer dizer longe, distante, fora de, e "Bolós", que como vimos é levar, movimentar, trazer, bailar. DIABÓLICO, portanto, quer dizer dividir, separar, levar para longe.
O simbólico nos aproxima, une, convida à comunhão. O diabólico nos afasta uns dos outros, separa, gera desunião.
A mesa eucarística é, portanto, convite permanente à comunhão. E a comunhão deve acontecer antes, durante e depois da mesa. Não é por acaso que Jesus, no evangelho de Mateus, alerta:
“Se fores apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta...”.
Ao redor da mesa fazemos refeição e celebramos comunhão. E o primeiro alimento que compartilhamos é a presença do outro. O encontro com o outro me alimenta, me faz fraterno, companheiro. Ah, a beleza das palavras! Companheiros, con pannis, aqueles que compartilham o mesmo pão...
A mesa da eucaristia é lugar de encontro para aqueles que já se encontraram em outros níveis e dimensões. Como na mesa da minha família, guardada na gaveta da saudade, na memória da minha infância. Em torno dela, depois da missa, continuávamos a celebrar comunhão. Só faz sentido estar à mesa ao lado de pessoas com quem vivemos, ou tentamos viver, em fraternidade.
Seguir a Cristo, ser igreja, viver em comunhão. Eis o verdadeiro milagre eucarístico. Anônimo, desafiador, silencioso, simples, cotidiano, imprescindível...
Nós somos o corpo de Cristo.
Nós fazemos o verdadeiro milagre eucarístico acontecer ao redor da mesa da vida...

Eduardo Machado
04/06/2009

Para completar este artigo veja este belo hino eucarístico "Panis Angelicus"

Um comentário:

  1. ESPETACULAR ESSA POSTAGEM DO EDUARDO MACHADO.
    A GENTE VÊ AS COISAS COM NOSSOS OLHOS E É BOM TAMBÉM VER COM OS OLHOS DOS OUTROS.

    Grego/Ex-SICampinas-sp

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