segunda-feira, abril 13, 2009

Artigo do Eduardo Machado: A Paixão não está acabada...

Leia, abaixo, mais um artigo do Eduardo Machado, coordenador da Pastoral do Colégio Imaculada, de Belo Horizonte.

A paixão não está acabada...


Lentamente caminho pelo corredor da Igreja. Nas paredes, as estações da Via Sacra. São quadros de traços tradicionais, figuras familiares, de cores vivas que combinam com a arquitetura do templo.

Estou diante da 1ª estação. Jesus é levado pelos soldados de Pilatos. Acabou de ser condenado...

Paro e fico pensando no quadro, na frase sob ele:

“Jesus é condenado à morte...”.

Um outro quadro vem à minha lembrança...

Há pouco, na rua, parei num sinal em frente a um posto de saúde. A fila, longa, estendia-se pelo quarteirão, dobrava a esquina.

Mulheres de olhares tristes, velhos cansados, crianças chorosas.

Entre os carros parados, o habitual grupo de pedintes, mendigos, desempregados, malabaristas, oportunistas, todos em busca de uma improvável fresta nos vidros e corações fechados. Enfim, o sinal abriu-se e segui em frente, deixando para trás e levando comigo uma imensa falta de esperança.

Do rádio do carro, outras imagens vieram num turbilhão: o noticiário das guerras, os números das mortes anônimas, a brutalidade sem nome, a dor.

Políticos engravatados, com discursos que prometem liberdade e paz, semeiam desespero e terror.

As estatísticas do desemprego, da violência. As crianças sem escola, as escolas sem merenda, os sem casa, os sem terra, os sem teto, os sem futuro...

Angustiado parei aqui, nessa Igreja, em busca de silêncio e, quem sabe, alguma paz.
E agora, estou diante da primeira estação da via sacra que ganha outras cores e significados. No rosto de Jesus, vejo os rostos anônimos que vislumbrei na fila, que encarei no sinal, que imaginei nas notícias que vieram pelas ondas do rádio. Penso comigo:

Ele continua sendo condenado...

A paixão continua acontecendo. Mudaram os nomes, os rostos, mas o enredo continua quase o mesmo. Pilatos e os fariseus hoje podem chamar-se Eduardo, Ângela, Antônio, Luiz, Marina...

No quadro, contemplo a multidão que passa pela fila, assiste a TV, ouve o rádio, lê os jornais, fecha o vidro do carro nos sinais, trava as portas e segue em frente, alienada, cega, insensível, impotente. Em meio às buzinas, posso ouvir um grito que atravessou os séculos e agride, agora, o silêncio dessa igreja vazia:

CRUCIFICA-O!!!

Olho mais uma vez o quadro. Há outras figuras ali, ao redor de Jesus. Percorro cada rosto em busca de algo ou alguém.
No meu coração, a pergunta brota, espontânea: quem sou eu, hoje, no drama da Paixão? Que papel represento nessa história que continua sendo contada e vivida todos os dias?

Seria o de Judas, o amigo traidor que ‘topou tudo por dinheiro’...?
Pedro, o líder impetuoso que diante do risco preferiu negar e depois chorou escondido o seu arrependimento, a sua covardia...?
Os outros amigos que fugiram, abandonando Jesus à sanha dos seus algozes...?
Os sacerdotes que para não perderem o poder, a influência, o controle, tramaram, mandaram prender, interrogaram, torturaram, mentiram e forjaram um julgamento de cartas marcadas...?
Pilatos, o juiz que declarou a inocência do réu, mas, por fraqueza pessoal e conveniências políticas, condenou-o, entregando sua vida nas mãos da turba que, insuflada e manipulada, pedia sangue...?
Herodes, que se divertiu e, entediado, resolveu passar a outro a responsabilidade...?
Os soldados que, cumprindo ordens, fizeram o serviço sujo...?
Os curiosos que estavam lá, para ver e comentar...?
Os que acharam um absurdo, uma brutalidade, mas permaneceram calados, omissos, assustados...?
Não consegui continuar a via sacra. Parei na 1ª estação. Lá fora, outra via me esperava. O imenso calvário do cotidiano onde eu precisava encontrar, de alguma forma, sinais de ressurreição em meio a tanta presença da morte. No coração, a pergunta insistia:

Onde eu estava naquela sexta feira, em todas as sextas feiras, em todos os dias dessa interminável semana de paixão e dor?

Eduardo Machado
01/04/2003

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