terça-feira, janeiro 20, 2009

Artigo do Paulo Botelho: O Pão da Fome.

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo nosso amigo Paulo Augusto Podestá Botelho (Debanda) que estudou no Seminário Seráfico Santo Antônio, em Santos Dumont, de 1956 a 1958 e atualmente mora em São Paulo.

O Pão da Fome


Por Paulo Botelho

Eu já tinha visto aquela menina em vários lugares do bairro da Saúde. Mas, não tão de perto como a vi na entrada da padaria Ronex, bem na esquina da rua Paracatu com a avenida Jabaquara. Muito magra, descalça, vestido largo e roto, sorriu-me mostrando os seus dentes alvos e olhos tristes. Pediu-me para "passar no caixa" os oito pães que pedira ao balconista de cara amarrada. Como um troféu, saiu apressada - quase correndo - apertando o saco de pães contra o peito, assim como uma mãe que sai em busca de seus filhos. Fiquei pensando na menina Cosette, personagem de "Os Miseráveis", obra prima do escritor Victor Hugo. Ninguém melhor que ele expressou tanta compaixão pelos oprimidos, tanta generosidade pelos abandonados, especialmente pelas crianças. A criança é personagem recorrente em toda a obra literária de Victor Hugo. Em "Os Miseráveis", após ser condenado à prisão por roubar um pão, Jean Valjean, o pai de Cosette, foge e passa a ser perseguido pelo cruel policial Javert que tudo fará para prendê-lo novamente.

Quantas Cosettes estão por aí! Elas sobrevivem não só aqui em São Paulo, em Recife, em Belo Horizonte, em Muzambinho, em Porto Alegre. Segundo dados do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, há 30 milhões de pessoas vivendo com extrema dificuldade, com uma renda per capita inferior a R$ 80,00/mês. Não ganham o suficiente para as suas necessidades mínimas de alimentação, isto é: 2.000 calorias/dia. Desses, 23 milhões vivem em estado de miséria absoluta.

Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão já dizia: "Só um vidro separa o pão da fome!"

A persistência de propósitos, a seta do tempo, o Weltgeist – a Dinâmica da História de que fala Hegel - farão com que o momento chegue para que os oprimidos e abandonados possam realizar a viragem rumo à dignidade. Recuso-me a aceitar que o sofrimento de milhares de desempregados, aposentados, discriminados, torturados e ofendidos de nossa história mais recente tenha sido em vão!

O amor ao próximo está longe de representar um devaneio piedoso, carola, de alívio de consciência. Trata-se de uma essencial exigência pessoal e política, sem cujo atendimento não nos coloca a serviço de nós mesmos e nem de ninguém. Amar ao próximo como a si mesmo é, por excelência, o conceito básico pelo qual podemos chegar a um pleno amor por nós mesmos. Santo Agostinho, em sua Summa Theologica ensina que "Somos os primeiros e mais íntimos próximos de nós mesmos". E essa relação passa, necessariamente, pela existência e sobrevivência dos outros, principalmente pela garantia do estado de bem-estar social. Do berço ao túmulo! Ao defender o direito que tem o outro de ser, afirmamos - e confirmamos - o nosso direito de existir.

Filha da justiça, a sobrevivência digna haverá de triunfar. E esses tempos em que vivemos serão lembrados como um passado tenebroso em que nenhum animal era visto em público passando fome, exceto o bicho-homem que tanto horror causou ao poeta Manuel Bandeira: "Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos/ Quando achava alguma coisa/ Não examinava nem cheirava? Engolia com voracidade/ O bicho não era um cão/ Não era um gato/ Não era um rato/ O bicho, meu Deus, era um homem!"

Sonho com um país organizado, com o meio ambiente resolvido, sem fome, sem crimes, sem injustiças e sem preconceitos. Tenho um sonho recorrente, com um país magnificamente chato, com a rotina estrutural do que vai ser o dia seguinte, o mês seguinte, o ano seguinte, a década seguinte e o século dos séculos! Amém.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br

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