quarta-feira, novembro 05, 2008

Artigo do Paulo Botelho: Por uma sintaxe ambiental.

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo Paulo Botelho (Debanda)

POR UMA SINTAXE AMBIENTAL


Por Paulo Botelho


Aquele vagão da Linha Norte-Sul do Metrô paulistano estava apinhado de gente naquele calorento início de tarde de terça-feira. Um grupo animado e irreverente de jovens secundaristas voltava das aulas. Um deles, alto e forte, acabara de obter a última mãozada de pipocas saídas de um enorme saco e que ele enfiara de uma só vez na boca. Desembarco quase junto a eles pela plataforma da Estação Saúde rumo à escada rolante. No percurso, o rapaz alto e forte, joga o saco amassado no chão. Apanho-o e coloco-o numa das inúmeras lixeiras da Estação. Chamando-me de “tio”, mas furioso como um javali, o rapaz me interpela já no topo da escada querendo saber o porquê daquela minha atitude. – Quase disse a ele que não tenho irmã prostituta! Porém, não lhe disse nada; deixei-o abestalhado, segurando a sua pesada bolsa do cursinho Etapa. – E segui pensando no porquê daquele rapaz alto e forte. Mas, contudo, de uma maneira recorrente, me veio à mente o rio Tietê que continua sendo uma fossa a céu aberto, aqui em São Paulo. Para salvá-lo teríamos que começar a despoluir os córregos que deságuam nele. Tarefa difícil. A maioria desses córregos está tamponada. Os paredões de concreto construídos ao longo da Marginal dão apenas um toque visual que imita os rios europeus, com uma diferença: lá os rios estão vivos, cristalinos, verdadeiros. Aqui tal “tarefa ecológica” tem outro nome: imbecilidade científica, técnica, administrativa e social do governo do Estado de São Paulo. – E pensar que, paradoxalmente, o nome Tietê significa verdadeiro em Tupi-Guaraní!

Mia Couto, escritor moçambicano, em seu livro “O Último Vôo do Flamingo” tenta entender o que aconteceu com o seu país cuja história coletiva foi consumida pela ganância dos poderosos e pela ignorância cívica de seus habitantes. Ele relata a história dos flamingos que desapareceram, para sempre, de Moçambique; justamente esses pássaros reconhecidos como eternos anunciadores da esperança.

Matam-se animais hoje mais do que se matava no tempo de Joaquim de Luna Miranda Couto, meu bisavô, poeta e ecologista mineiro. E com mais pressa. Ainda hoje o boi morre com marretadas na testa ou de sangria na carótida!

Estabelecer uma sintaxe ambiental é uma questão de vida ou morte. Os riscos globais, a extinção gradativa de espécies de animais e vegetais – seja decorrente de causas naturais ou de ações de degradação humana – assim como a resolução de novas necessidades, deixam claro que o fenômeno biológico e suas manifestações sobre o planeta Terra estão perigosamente alterados. – Em decorrência, a preocupação com a vida desemboca numa “ética de sobrevivência”. – E o que é ética? – Ética é ação. É a maneira de colocar em prática os valores da cidadania. – Ela está no espaço que se situa entre o que “é” e o que deveria “ser”. Ninguém definiu melhor ética, como responsabilidade social, que Alexis de Tocqueville, escritor e político francês do Século XVIII: “A atitude que uma pessoa toma pode ser escrita? Pode ser publicada na primeira página de um jornal? Pode ser deixada para os seus netos? – Se a resposta for sim, a atitude é ética”.

Para isso, é preciso ensinar e treinar o “homo praedactor” (o ser humano predador) – dissidência antropológica do “homo sapiens” (ser humano sábio) – como aquele rapaz, alto e forte, do saco de pipocas. – Ele pode aprender. – Ele tem solução!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. WWW.paulobotelho.com.br

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