domingo, outubro 19, 2008

Artigo do Paulo Botelho: Se eu falasse a língua dos anjos.

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo Paulo Botelho (Debanda).

SE EU FALASSE A LÍNGUA DOS ANJOS

Por Paulo Botelho

“Se eu falasse a língua dos anjos,

se eu falasse a língua dos homens,

sem amor, eu nada seria.”

(São Paulo, Coríntios I – 13:1)


O passado que atravanca o Brasil está mais presente entre nós do que qualquer um pode imaginar. Desde a maneira de falar e escrever, passando pela maneira de viver, até a maneira de pensar a vida e a política. O sociólogo José de Souza Martins da USP, constata: “Ainda falamos, em todo o Brasil, um resquício da língua nheengatu, que poderia ser chamada de língua nacional brasileira ou língua do povo”. Segundo Martins, foi uma língua criada pelos missionários jesuítas, provavelmente, influenciada pelo padre José de Anchieta. Baseada na língua tupi e organizada a partir da gramática portuguesa, difundiu-se por toda a costa leste brasileira. Na verdade, nem nos damos conta de que a nossa geografia é, predominantemente, nheengatu, uma língua de servidão. Aí está o “mecê” de “vossa mercê” ou “vosmecê” com que os inferiores tratavam os seus senhores. Homem virou “home”; mulher virou “muié; orelha virou “orêia”; além dos abomináveis “magina” (paulistanês) e “caraca” (carioquês). Mais do que um vocabulário nessa linguagem sobrevivente há parâmetros de consciência relativos à subalternidade. Raramente dizemos uma frase inteira. Nossa fala cotidiana tem sujeito e verbo; raramente objeto e complemento.

Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, analisa: “Diferente do que ocorre com a língua portuguesa em Portugal, sempre dizemos as coisas pela metade: “Eu vou”, mas não dizemos para onde vamos e nem quando. Essa é a linguagem do medo; de quem não pode dizer uma frase completa porque não tem certeza”.

Essa linguagem incompleta é a linguagem dos subentendidos, da certeza de que o outro saberá o que estamos dizendo. Linguagem da dissimulação, da vergonha e da subserviência; do faz de conta. Falando ou escrevendo metade, dizemos o que os outros querem ouvir ou ler. Sempre deixamos um resto de frase para completar o andamento da comunicação.

Peter Drucker, escritor e consultor americano emérito, ensinava: “O conhecimento é o único recurso econômico que faz sentido”. Com toda a razão, no que ele entendia como “Era do Conhecimento,” faz com que empresas bem sucedidas recrutem, selecionem, treinem e preservem pessoas que aprendem rápido. Para isso, é fundamental que elas se comuniquem mais e melhor utilizando-se de linguagem objetiva, correta e concisa. Infelizmente, ainda estamos longe disso aqui na Botocúndia!

Escrever é comunicar-se. Escrevemos para comunicar alguma coisa a alguém. E o que significa comunicar-se? – Pela própria etimologia da palavra, significa tornar comum uma informação, uma idéia, um projeto. Se redigimos um e-mail, um relatório, um memorando, uma carta ou qualquer tipo de texto, queremos que outras pessoas compreendam e assimilem nossa mensagem; o que estamos querendo dizer. – E como proceder para que esse objetivo se concretize? – Em primeiro lugar, todo texto precisa ser claro e objetivo, isto é: a mensagem tem que ser facilmente assimilada pelo leitor – ou interlocutor – e deve ir direto ao ponto, sem assuntos periféricos que dificultam a compreensão.

Ao escrever, não precisamos ficar obcecados em demonstrar erudição e cultura gramatical. Machado de Assis, nosso melhor escritor, já comparava: “Pode ser um gênio em gramática e um cretino ao escrever”. Se quisermos falar e escrever, de modo eficaz, devemos direcionar a nossa preocupação para três funções básicas de uma correta comunicação: produzir uma resposta, tornar o pensamento comum e convencer.

É preciso, sempre, ter boas palavras: linguagem de amor; linguagem dos homens, de seres humanos. – Elas, as palavras boas, são para serem pensadas e salvas no disco rígido de nossa vida e memória. - Mesmo quando queremos falar e escrever a língua dos anjos!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br

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