quinta-feira, outubro 16, 2008

Artigo do frei Cristovao: Foro Social das Americas.

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo Frei Cristóvão que esteve participando do Foro Social das Américas, na Guatalema.

III FORO SOCIAL DAS AMÈRICAS – Guatemala 7-12/10/2008.

Intodução

“Um outro mundo é possível. Não só é possível, quanto necessário”, isso por causa das mudanças climáticas provocadas pelo atual modelo civilizatório hegemônico. Em muitos comitês responsáveis pela organização e realização das muitas versões do Foro Social já se proclama, oficialmente: “E necessário”.

O Foro Social, em suas variadas versões, desde o mundial, dos continentais, dos nacionais, dos regionais, dos estaduais, dos municipais é um espaço, não um movimento, muito menos uma ONG. Um espaço onde se trocam experiências, alternativas e criam-se redes para a difusão das mesmas no que diz respeito ao que se entende por “Um outro mundo é possível e necessário”.

Quanto à discussão se os foros fossem uma organização, uma ONG, um movimento, mas, antes, um espaço público aberto e acessível a todos que comungam a idéia, o sonho, a utopia de uma outra maneira de ordenar o mundo (Geopolítica), veja a Carta de Princípios do Foro Social, de 10 de junho de 2001, e o meu livro “O Contrapoder Popular, Belo Horizonte, Perfil Editora, 2005.

I. Relembrando

1. O fio-condutor que deu origem aos Foros e ilumina suas realizações, sua proposta alternativa ao modelo neoliberal necrófilo, suicida, aético, desumano, é a busca coletiva de alternativas que o supere. É um processo que não tem resposta acabada e definitiva. Deve ser construído ao longo da História e com a participação de todos, um processo extremamente democrático.
2. O Foro, por si mesmo, não apresenta soluções acabadas, mas, antes, abre um espaço de discussão e de apresentação de experiências alternativas no sentido de superação do modelo vigente.
3. O Foro se abstém de fazer e publicar qualquer documento oficial além de sua Carta de Princípios. Toda e qualquer manifestação desta ou daquela entidade que se inscreve para participar do Foro deve faze-la em nome próprio, desde que não vá a proposta-fundante: “Uma proposta alternativa ao Projeto Neoliberal.
4. O Foro Social Mundial é coordenado por um Comitê Internacional, mais de 120 pessoas que se reúne, periodicamente, com a finalidade de assessorar a realização de outros foros, em outros níveis; preparar o Foro Social Mundial e zelar pelo cumprimento e respeito de sua Carta de Princípios. Normalmente são realizados em cidades estratégicas com um perfil de governos que se opõe à proposta neoliberal.
5. O Foro Social Mundial tem seu sítio no correio eletrônico com o seu histórico, Carta de Princípios, sua biblioteca, sua agenda de eventos.
6. A introdução da temática ”Ética-Espiritualidade Transformadora” nos eixos norteadores do Foro foi fruto de longa discussão no interno do Comitê Internacional tendo à frente lideranças comprometidas com a Teologia da Libertação; no Brasil, com o Movimento “Fé & Política” e tantas outras entidades comprometidas com a Paz mundial.

II. III Foro Social das Américas - Guatemala 7/12/10/2008.

1.Os Eixos de Trabalho

Eixo 1: Alcances e desafios das mudanças no Hemisfério:Pós-Neoliberalismo, Socialismos, Mudanças Civilizatórias.
Eixo 2: Povos em Resistência ao Neoliberalismo e à Dominação Imperial.
Eixo 3: Defesa da Qualidade frente ao Capitalismo Depredador.
Eixo 4: As diversidades e igualdade: desafios para sua concretização.
Eixo 5: A Disputa Ideológica: a Comunicação, as Culturas, os Conhecimentos, a Educação.
Eixo 6: Povos e Nacionalidades Originárias, Indígenas e Afrodescendentes: O “Bem Viver” e suas Chaves para o Futuro.

2. Especificidades e Limitaçõesde trabalho:

• Crise das especificidades podem ser pontualizadas pelos eixos modelo neoliberal e seus impactos na América Latina.
• Integração das populações indígenas na América Latina, respeitando suas diversidades étnico-culturais. A luta pela sua identidade e resgate de suas terras, ocupadas pelo colonizador branco. A resistência contra os grandes projetos das grandes corporações internacionais que exploram depredatoriamente a natureza. São anti-ecológicas. A Terra para os índios faz parte de sua identidade.
• A natureza e o índio constituem um todo holístico. Os índios são, naturalmente, ecológicos. Faz lembrar o lugar e a importância da Terra na Bíblia, tanto na antiga como na nova Aliança (Abraão, os patriarcas e matriarcas, Juizes – Parábola do Semeador, do Jóio e do Trigo (Cf. Belo, Fernando, Lectura Materialiste de L’Evangile de Marc, les Éditions Du Cerf, Paris,1975).
• Neste viés podemos acrescentar a parábola do pai de família que contrata desempregados para trabalhar na sua vinha. É uma crítica ao sistema fundiário da Palestina no tempo de Jesus de Nazaré. Podemos compará-los aos “Sem-Terra” de hoje. Endividados, suas terras foram confiscadas pelos sacerdotes, anciãos do Templo e generais romanos reformados.
• A parábola dos talentos: o empregado que enterra os talentos recebidos o faz como protesto ao patrão mau e explorador de seus empregados. É uma crítica de Jesus à concentração da Terra e ao sistema trabalhista de então. Foi-nos passado uma leitura fundamentalista, espiritualizante; e muitos de nós a perpetuamos!
• A realização do Foro na Guatemala, além de ser uma preparação ao Foro Mundial em janeiro/2009, em Belém do Pará, foi estratégico enquanto aproximou duas culturas hegemônicas os Mais e os Incas. Realizou-se num país ainda marcado por anos de ditadura militar e onde os militares controlam o aparelho do Estado.
• O boicote ao Foro por parte da Mídia. A imprensa falada, escrita e televisionada pouco noticiou sobre o evento. A TV simplesmente o desconheceu! Estão atreladas ao grande capital e policiada pelos generais das Forças Armadas.
• . As 5 colunas publicadas pelo jornal de maior circulação do país, “Prensa Livre”(!), procurou passar uma versão distorcida do Foro, desconhecendo sua Carta de Princípios, apontando o risco de que as reivindicações das entidades participantes, fossem manipuladas por falsas lideranças demagógicas.
• Relembrando o facismo liderado por Hitler, Mussoline, Stalin e ditadores do passado latino-americano e em outras partes do mundo! Foi notória a rejeição das propostas do Foro.
• O fato de que a bandeira das populações indígenas ficou durante o Foro hasteada ao lado da bandeira nacional na praça central da cidade, frente ao Palácio do Governo, deve ter molestado a oligarquia nacional e seus capachos!!
• Guatemala, enquanto país, tem, aproximadamente, 12 milhões de habitantes, sendo que 6 milhões vivem na grande Guatemala-Capital. A concentração fundiária provoca violento êxodo rural. Fato semelhante pode-se constatar na China. Está se prevendo até o ano 2020 a migração de 350 milhões de chineses do mundo rural para os centros urbanos modernizados pelo Capitalismo Estatal chinês!
• Na Guatemala os latifúndios são terras destinadas à produção da cana-de- açúcar. A Guatemala é a 6ª produtora de cana-de-açúcar do mundo. A produção mecanizada em grandes extensões de terra explica a concentração urbana e suas seqüelas: miséria, pobreza e violência urbana.
• A participação franciscana no Foro. A Sinfrajupe tomou a iniciativa de preparar nossos irmãos e irmãs (5 meses), para que pudessem participar do Foro. Um grupo de irmãs de diversos países da América Latina veio à Guatemala, hospedando-se no Centro Pastoral Franciscano, com a finalidade exclusiva de participar do Foro.
• Entre os freis da Província Franciscana de N. Sra. de Guadalupe, encontrei interesse e sensibilidade no tocante à relevância da realização do Foro. A coincidência com o Capítulo Provincial impossibilitou a participação dos irmãos no Foro.
• Em minha conversa com o irmão visitador, como também com o irmão secretário da Província defendi a tese de que os Foros Sociais são verdadeiros “Sinais dos Tempos”, “Lugares Teológicos”. É aí que temos que reinterpretar, contextualizar nosso carisma (800 anos de seu reconhecimento pela Igreja).
• Crítica à Igreja-Instituição: Em dois seminários em que participei e fiz intervenção tive que engolir calado a crítica à omissão e à cumplicidade da Igreja-Instituição com o processo colonizador. Um novo mundo é possível, uma nova Teologia é possível, uma nova hierarquia”.
• Num seminário onde discutíamos a efervescência política na América Latina, relembrei que Marti nos deixou uma lição histórica valiosa: “Não se faz revolução na América Latina sem levar em conta a cultura de seus povos, sua cordialidade.
• A esquerda falhou ao desprezá-la. Fiz menção à minha tese de quando estudante em Paris: “A religiosidade Popular na América Latina e o Marxismo (Materialismo Dialético). A Religiosidade Popular carrega em seu bojo uma dimensão profético-libertadora, portanto, revolucionário-transformadora.
• Tudo depende de uma nova metodologia evangelizadora. As CEBs caminham nesta direção, não obstante a desconfiança e rejeição por parte da Hierarquia e da Cúria Romana. As Comunidades Eclesiais de Base usam a metodologia: VER-JULGAR-AGIR- CELEBRAR-AVALIAR.
• Onde me hospedei? Na Cúria Provincial dos franciscanos. Um complexo: Igreja Paroquial, Centro Franciscano, Biblioteca, o Convento, o Provincialado e o antigo prédio para os estudantes de Filosofia.
• Os frades da Província rezam mais do que os da Província de Santa Cruz. Missa diária, recitação das Laudes com 15 a 20 minutos de meditação; recitação das Vésperas com o mesmo tempo reservado à meditação. Há também a reza coletiva do Terço, caminhando ao redor da quadra de esportes. Suponho eu, uma vez na semana Participava da Eucaristia na Igreja-Matriz, em seguida a reza das Laudes com 15 minutos de meditação; café; após o qual tomava rumo em direção à Universidade São Carlos. Os indígenas Maias celebravam, todos os dias, a partir das 6 horas o seu ritual em honra aos seus antepassados; como o culto era longo, podia participar de alguma parte do ritual. Uma fornalha com terra e cascalhos ficava ao centro da roda. A cerimônia era, normalmente, presidida por uma pessoa idosa e participação ativa das mulheres indígenas. Muita fumaça da fornalha e dos turíbolos usados para incensar os presentes. Muita gente acompanhava, respeitosa, o culto.
• Uma discussão durante o jantar: a conversa girava em torno do Foro e do que vem acontecendo no cenário político da América Latina: Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai, Bolívia, Equador, Colômbia com mais de 20 anos de guerra civil sustentada pelos EUA.
• O provincial, no final de seu ministério provincial, pessoa simpática, cabeça arejada, candidato a bispo, porém, rifado da lista selecionada pela nunciatura por causa de sua postura em defesa de frades devido a suas práticas pastorais. Ironicamente, para me provocar, saiu com essa: “Evo Morales é uma figura folclórica”
• Devolvi: “Sim é verdade, concordo. Isso, na condição de tomarmos o termo na sua significação originária, na sua semântica primeira: “For all”, um valor que nasce de todos e está a serviço de todos. Francisco também foi uma figura folclórica no seu entorno cultural-religioso de seu tempo.
• O resgate do núcleo duro da mensagem evangélica: a Fraternidade universal. Todos nós, pessoas humanas, os animais, as plantas, a Terra, todos somos filhos de Deus, por Ele criados na gratuidade de seu amor, de sua bondade de Pai.
• O burel franciscano não deixa de ser expressão simbólica do folclorismo do nosso carisma! Prometi a ele que iria tocar no assunto no meu relatório sobre o III Foro Social das Américas. Ele gostou da idéia!
• Visita a Tpkal (Peter Itza: Pedras Negras).
Tpkal foi a primeira capital da Guatemala, destruída por um terremoto, no início do séc. XVII, distante 90 km da atual capital. Trecho lindo, a estrada contornando a serra coberta de mata nativa. A visita foi programada pela Sinfrajupe. Saímos às 7 h 20 m e chegamos ainda para participar da missa das dez na igreja reconstruída após o terremoto.

Tivemos como cicerone um casal da OFS (Ordem Franciscana Secular). Toda a história do irmão frei Pedro foi-nos transmitida durante o trajeto. Chegara a TpKal no início do séc. XVI, e lá permanecera por dez anos.
Desenvolvendo intensa atividade pastoral junto aos enfermos e idosos. Construiu o hospital. A exemplo de São Francisco, exortava o povo à conversão e à prática do bem com simples palavra e bondade de coração.
Recolhia as intenções nas casas que visitava e as entregava ao celebrante na igreja. Tpkal é um centro turístico e de peregrinação, de veneração ao santo irmão frei Pedro. Uma cidade marcada, através dos anos pela presença e espiritualidade franciscana. As ruínas do antigo convento franciscano, com seus corredores, transformado em museu dedicado ao Irmão Pedro, é toda uma construção de pedras da região.
Suas colunatas, paredes, ruínas do pátio central, impõem-se com sua beleza arquitetônica. Tudo inspirando silêncio e interiorização, como se tudo nos convidasse a um mergulho ao profundo do nosso ser, onde deparamos com o Absoluto, origem de todos os seres. Retornamos à capital para participar da concentração da grande marcha de encerramento do Foro.
• A presença indígena – os trajes multicolores das mulheres indígenas. Saias e blusas coloridas. Cada região com suas cores típicas. Um trajar que expande a alegria de viver do índio junto à natureza fecunda e generosa.
• A capital é uma cidade plana com largas avenidas de mão dupla e arborizadas.
• O clima nesta estação é frio com pancadas de chuva esporádicas.
• A arquitetura da Igreja Sagrado Coração de Maria foi seriamente danificada com os elevados construídos bem à sua frente.
• A região da Zona 12 é violenta. Tanto assim que em frente do convento tem um carabineiro armado com sua escopeta. Sendo assim ficamos impossibilitados de participar da programação cultural noturna.
• O povo guatemalteco é alegre e acolhedor. Há tanta espontâneidade ao se saudarem como companheiros ou como irmãos.

Conclusão

É do terceiro mundo, dos povos emergentes que se pode esperar algo de novo. O velho Continente está com sua liderança cansada, o mesmo vale para a Igreja. Veja o colégio cardinalício. São pessoas idosas incumbidas de eleger o sucessor de Pedro, sem a menor participação do Povo de Deus, de mulheres e homens leigos.

Os “nervos” do poder, as decisões políticas, das quais dependem a vida de milhões de pessoas, não se concentram no interior de nossas igrejas; no recinto dos palácios episcopais e muito menos nas dependências do Vaticano; mas antes, nas ruas, praças mundo afora. Pois bem, é justamente neste espaço público é que acontecem os Foros Sociais.

É lá que a História acontece e se faz. É lá que somos chamados a marcar nossa presença para aí temperar com o sal do Evangelho; fermentar com o fermento da Boa Nova; ser luz que aclare os passos em direção da Vida, da Justiça, da Paz que o Senhor nos mereceu com o seu gesto radical de doação e entrega amorosa na Cruz.

Ao ensejo das celebrações dos 800 anos de aprovação do carisma franciscano, importa se fazer presente nos Movimentos Sociais em nome de Francisco e Clara com sua mensagem de Paz, baseada na Justiça Social, partilha dos bens necessários a todos nós. Paz e Bem!

Frei Cristóvão Pereira ofm.
Convento S. Francisco das Chagas,15/10/2008.
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
freicristovao@gmail.com

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