quarta-feira, junho 25, 2008

Prefácio da cadernetinha do Enfrades

Leia abaixo o prefácio escrito pelo Ronald Claver para a Cadernetinha do Enfrades - Encontro Franciscano de Ex-seminaristas: "A Saudade que Ficou". A cadernetinha, já na sua 4ª edição, de 1998, contém os nomes de mais de 1.000 ex-seminaristas que passaram pelos seminários franciscanos da Província de Santa Cruz (Minas Gerais e sul da Bahia): Santos Dumont, São João del Rei, Betim, Visconde do Rio Branco e Montes Claros.
No livreto constam os nomes, apelidos, época em que estudaram com os franciscanos, data de aniversário, endereços residencial e comercial, atividades que exercem e outras informações.
O Ronald Claver é professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e tem uma página na Internet onde você pode conhecê-lo melhor.
Ele custou a participar dos nossos encontros - por causa das suas atividades - mas depois que "experimentou" da nossa alegria "in loco" não tem perdido nenhum encontro.

ERA UMA VEZ SANTOS DUMONT, ERA UMA VEZ.

Parodiando o poeta, poderíamos dizer que Santos Dumont é apenas um quadro pregado na parede da memória, mas que ainda dói. E como permanecer ausente, se volta e meia a saudade se esbarra no silêncio tênue, que se tece nas noites de frio e no verde da Mantiqueira que os olhos continuam ondulando; ou mesmo quando se senta na mesa do bar e sorvemos o mel da noite de tanta ternura e passado.
Como esquecer Santos Dumont que sempre foi um ficar ficando, que sempre se impregnou de coisa, de pequenas coisas que as retinas não se esquecem. Como não encontrar em Santos Dumont a travessia, os verdes anos da esperança e sonhos? Santos Dumont é mais que um retrato, é um passado sem bilhete de volta. É o coração fluindo, correndo em busca do tempo. Como não querer jogar de novo no time do Seráfico, ler a “Alvorada”, fazer parte do clube ou subir no palco e dizer, impunemente, “to be or not to be”? Ou quem sabe, dar um mergulho na piscina fria que limpava os limbos dos corpos.
E como enfrentar depois, muito depois, o cotidiano, este lírico e trágico cotidiano com a loucura instalada nos olhos à procura de uma estrada para Assis? E onde estamos nós? Onde estão todos eles que um dia foram chamados? Onde estão? Onde estamos? Se o apelido já não basta, se a saudade também não basta. Onde está o Frango, o Holandês, o Pepino, o Goleiro, o Pozinho, o Carrapato, o Jipe, o Bolacha? Onde está o Patrício, o Hilário, o Arnaldo, onde estamos nós? A caminho de Assis ou perdidos em alguma latitude: Em que mapa, em que planeta, em que cargo estamos atendendo ao pedido de Francisco?
E Santos Dumont onde está? No terço, na missa matinal, nos estudos obrigatórios, nas safadezas, na sacristia, no missal ou na dúvida que antecipava a cada manhã? Onde catalogar tudo, se existe um quadro pendurado sempre nos ocos da memória? E o que ficou, e o que fica e o que ficará? Serão os passos do peregrino, serão os pássaros do peregrino, ou será a eterna Assis a nos provocar e desafiar? E onde ficamos em tudo isso? Na lembrança de uma situação ou no era uma vez?

Ronald Claver

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