domingo, maio 25, 2008

Artigo do frei Cristóvão: O despertar da América Latina.

Leia abaixo mais artigo do Frei Cristóvão.


O DESPERTAR DA AMÉRICA LATINA – EFERVESCÊNCIA POLÍTICA REGIONAL

A vitória de Lugo Fernando nas recentes eleições paraguaias são por demais promissoras; primeiramente, para a população guarani daquele pais; mas não deixa de ser emblemática para toda a América Latina. Depois de 61 anos no Poder, o Partido Colorado, se esgotou. Foram anos consecutivos que um grupo da oligarquia local usufruiu da máquina estatal em benefício próprio. Incapaz de renovar os próprios quadros, mergulhada na corrupção, levou o povo guarani ao cansaço e ao desejo de mudança na esperança de melhores dias.

Pobreza (mais da metade da população abaixo do nível da pobreza), analfabetismo, corrupção, contrabando, concentração fundiária, violência foram fatores que, ao longo de 61 anos, favoreceram a permanência no poder de uma oligarquia inescrupulosa e corrupta.

No Paraguai vivem mais de 450 mil brasileiros; muitos dos quais proprietários de terras griladas, fazendeiros produtores de soja. Reforma agrária e regulamentação da propriedade fundiária são desafios imediatos do novo presidente Lugo. Eleito pela coalizão de um grupo de partidos da oposição e pelos movimentos populares, só conseguirá levar à frente seu projeto político, mantendo unida essa frente política de conotação esquerdizante.

Lugo, à frente da diocese de San Pedro, no departamento de igual nome, um dos mais pobres do país, se projetara com a sua participação nas lutas e movimentos sociais. Adepto da Teologia da Libertação despertou reação negativa por parte da Igreja conservadora!

Não podemos deixar de admirar e de respeitar a atitude de Lugo, ex-bispo católico de uma das dioceses mais pobres do país. Recorrera à Roma para se licenciar de sua função episcopal e se candidatar à presidência do país. Sendo-lhe negado o pedido de licenciamento, à revelia de Roma, renuncia ao episcopado, ciente de que como homem público poderia levar mais vida à grande maioria de seu povo do que como bispo de uma pequena diocese no interior do país.

Para uns, um gesto de desobediência e desrespeito à autoridade eclesiástica; já para outros, gesto destemido, profético de compromisso com a Vida e Libertação de um povo, a décadas oprimido e explorado. O compromisso com o Reino de Deus falou mais alto do que o com a Instituição Igreja, nem sempre fiel aos valores evangélicos.

Lugo, enquanto bispo, inspirado nos fundamentos da Teologia da Libertação, desenvolvia projetos sociais, visando a melhoria da qualidade de vida do povo, convicto de que um mínimo de bem-estar social é condição de uma prática religiosa consciente, responsável por uma sociedade mais justa, por isso mesmo, mais humano-cristã.

Com a vitória de Lugo, mais uma variável desfavorável à política imperialista dos EUA, Argentina, Brasil, Uruguai, Bolívia, Equador e Venezuela constituem barreiras diplomáticas às investidas político-econômicas do governo ianque, tendo esse como pretexto o combate ao tráfico de drogas e ao corredor vulnerável à infiltração terrorista, via a tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina.)

O aqüífero `Guarani`, uma das maiores reservas de água doce do mundo, tem aí o seu nascedouro. O que constitui preciosa arma estratégica em face às futuras negociações quanto à sobrevivência de toda a população da região.

Em termos geopolíticos, manter o controle militar na região é estratégico para controlar os arroubos de independência econômica dos novos governos latino-americanos, eleitos com o apoio de forças populares, de modo especial, das populações originárias, as etnias indígenas. Lugo foi eleito por uma coalizão de pequenos partidos da oposição e pelos movimentos populares nos quais as organizações da população indígena e rural tiveram o seu peso político específico.

A Esquerda do mundo inteiro olha com expectativa esta efervescência política em toda a América Latina. Novos atores sociais entram em cena: as populações originárias, remanescentes dos Quilombolas; a imensidão dos que se comprimem nas periferias dos grandes centros urbanos, expulsos pelo latifúndio e pelo agronegócio; o nível de conscientização do mundo feminino e respectiva qualificação profissional pesam na balança no sentido de se conseguir um novo equilíbrio sócio-político-econômico na região.

Uma revisão dos conceitos básicos que nortearam no passado as revoluções sociais se impõe como exigência epistemológica para uma atual compreensão do processo em ebulição no hemisfério sul, e para dele participar com inteligência e eficácia.

Frei Cristóvão Pereira ofm,
Convento S.Francisco das Chagas, 23/04/2008.

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