quinta-feira, março 27, 2008

Artigo do frei Cristóvão: Marta e Maria.

Leia abaixo mais um artigo do Frei Cristóvão:


MARTA E MARIA; O EXTERIOR E O INTERIOR

“A grandeza e beleza de uma pessoa brota do seu eu interno, do que ela é por dentro” (FC)

Há muito tempo, venho me debruçando sobre a tópica “O Personalismo” seja na sua vertente cristã como na sua vertente marxista. Uma de caráter espiritual-religioso-humanista; já a outra de cunho materialista-humanista. Entre os expoentes desta escola antropológica, entre outros, destacamos Emmanuel Mounier, Berson, Sarte, Nietzche, Heidegger, Russel, Edith Stein, Levinas e H.Buber. Nos evangelhos temos os exemplos paradigmáticos de Marta e Maria . Mas não podemos esquecer a pessoa impactante de Saulo-Paulo. E, dentre todas, a pessoa do rabi e nabi da Galiléia, Jesus de Nazaré. Por hora, limitemo-nos às duas figuras femininas do evangelho de João: Marta e Maria (Jo11, 1-45 - O sétimo sinal).
Para nós cristãos-católicos, a própria experiência da vida vai-nos convencendo de que não se faz pastoral sem um embasamento mínimo de espiritualidade, de mística, de cultivo da presença-libertadora do Deus de Jesus de Nazaré em nossa própria vida. Ele, o símbolo por excelência de Deus. Para evitar mal-entendidos, julgamos por bem explicitar o que venha ser “símbolo”, isso na esteira da metalinguagem: o símbolo expressa algo que vai além de si mesmo; ele traz em seu bojo, no seu interior uma realidade que o ultrapassa e a qual ele tenta visualizar dentro das dimensões que nos são naturais como pessoa humana: tempo e espaço. Nossa corporeidade e nossa espiritualidade (Corpo-Alma - Soma-Psiquê).
Hoje, com o avanço das Ciências do Humano, temos que reconhecer que o ser humano, a pessoa humana, constitui um ser holístico numa conexão inter-relacional. Então temos: soma (corpo) “psique” (afetividade), e “vous” (espírito). A antropologia pós-moderna compreende o “Homo” como um complexo dinâmico interativo, um ser holístico. Essas três dimensões são constitutivas do ser humano; todas elas são importantes e devem receber o devido valor e cuidado. Na Pós-Modernidade falamos de “qualidade de vida”, do “direito a uma alimentação sustentável”, de “direitos humanos”, “ do exercício de uma cidadania ativa”, de “economia solidária”, de “ética e transparência na Política”, de “orçamento participativo”, de “audiências públicas”, de “políticas públicas”, e coisas mais.
Nisso tudo vamos deparar com o soma, com a psique e com o vous. Entre essas três dimensões interagentes há como que uma dialética includente no sentido que se sustentam mutuamente e se exigem reciprocamente. O desafio para cada um de nós vocacionados a nos tornar sempre mais Pessoa, é manter um equilíbrio dinâmico entre elas; harmonizá-las dinamicamente. A supervalorização do soma pode chegar ao materialismo crasso, quando então nos tornamos escravos de nossas pulsões vitais (Berson). O “Homo” se bestializa. A psique hipervalorizada, nos torna vítimas de nossos sentimentos, afetos e desejos. Caso não atendidos fechamo-nos sobre nós mesmos, curtindo ressentimentos, mágoas de um passado distante. O isolamento, a solidão, a fuga do convívio social são artifícios de uma vida que vai se definhando, tornando-se sempre mais amarga. Isso quando fulano não parte para a ignorância. Temos, então, a forra, a vingança.
O cultivo excessivo do “vous” nos torna vítimas de nossa auto-estima, do inchaço do nosso “eu”, tornamo-nos narcisistas, vaidosos, petulantes, orgulhosos.
Voltemos à Marta e Maria, à Pastoral e à Evangelização
A tradição nos transmitiu a figura de Marta como uma mulher ativa, extrovertida, , agitada, para não dizer autista. Aquela que se preocupou em arranjar a casa para bem acolher o Rabi amigo. Já Maria, uma personalidade mais serena, introvertida, contemplativa; aquela que “escolhera a melhor parte”, uma vez que preferira ficar aos pés de Jesus, embevecida com suas palavras. Fora ela quem ungira os pés de Jesus, e os enxugara com os seus cabelos...(Jo 12,3). A pergunta fica no ar: são palavras de Jesus ou reflexões interpoladas da Comunidade Joanina?
Já no episódio da “ressurreição”de Lázaro (Jo.11,43) reavivação de Lázaro, isto porque Lázaro voltou a morrer, de quando da chegada de Jesus, Maria ficou em casa; Marta correu ao encalço de Jesus , com ele estabelece um diálogo, reclamando de sua demorada ausência. Com isso deixando entrever que sua fé em Jesus dependesse mais de sua presença física junto ao irmão gravemente enfermo. A mesma atitude podemos supor de Maria. No texto segue a profissão de fé de Marta: “Sei, disse Marta, que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”(11,23). No texto temos a solene proclamação de Jesus: “EU sou a ressurreição, quem crer em mim, ainda que morra viverá(11,25). Marta deixa entrever sua força interior ao enfrentar e interpelar o mestre, mostrando que seu exterior tinha consistência e firmeza, isto é, interioridade.
Temos aqui as dimensões exterior-interior se completando numa circularidade dialética, dinâmica. Um não vai sem o outro; ambos se exigem. Assim podemos dizer que não há pastoral, muito menos evangelização, sem o cultivo de uma interioridade (Vous).
O específico da Pastoral é o zelo e cuidado das ovelhas, seja à noite no aprisco, seja durante o dia, ao relento, se alimentando. Já são ovelhas que pertencem ao rebanho (Igreja).
Já o que caracteriza o processo evangelizatório é o anúncio de uma boa-notícia, o projeto de vida proposto pelo Rabi da Galiléia, testemunhado por sua vida, ensinamentos, sua práxis, aos de fora, aos que desconhecem o Senhor e sua proposta de vida. A veracidade de seu testemunho (Paixão e Morte), é confirmada pelo Pai o ressuscitando de entre os mortos.
Para evitar o descompromisso com o projeto de Jesus (Intimismo – fuga da Realidade, contemplação sem ação), temos que ser também Martas, sem nos perder na agitação do ativismo oco e inconsistente. Temos que ser “contemplativos-ativos”. Dentro de uma Marta tem que ter uma Maria; como também dentro de uma Maria tem que ter uma Marta.
A fé sem obras, é uma fé morta. (Tg 2,17). As obras, por sua vez, brotam, se alimentam da fé. Temos que crer com o coração, com as mãos, com os pés. Numa palavra, com a vida!

Frei Cristóvão Pereira ofm,
Teixeira de Freitas, 16/03/2008.
freicristóvão@gmail.com
http://teologiapolitica.blogstop.com/

Nenhum comentário:

Postar um comentário