segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Colégio Santo Antônio e São João del Rei

Leia abaixo um texto do Jarbas Albricker, enviado pelo Aloísio Tirado (Jaó), contando histórias do Colégio Santo Antônio e São João del Rei.

O Ginásio Santo Antônio de São João del-Rei

A grandeza material daquele estabelecimento saltava aos meus olhos, como ainda hoje em 1984. Àquele tempo, em 1934, mais impressionante era sua grandeza. O principal conjunto de prédios, em formato de quadrado, com uma parte aberta voltada para o interior, tinha vários andares, conforme a cada trecho da construção.
Àquela época, nem de longe se pensava em viagens espaciais, seres de outros planetas e que tais. Mas eu juro que, no meu primeiro dia no Ginásio Santo Antônio, viajei numa nave espacial, em companhia de um ser de outras galáxias: subi três andares em um elevador, em companhia de um frade holandês de mais de dois metros de altura. Aquele ser estranho era vermelho como o sol e pronunciava palavras que eu não conseguia entender. Com a mente imobilizada por forças desconhecidas, a princípio não conseguia entender nada do que os meus olhos viam, cheios de deslumbramento. Eu acabava de sair da selva para a metrópole e meu aculturamento era total.
Foram pouco mais de cinco meses de vida nova, cheia de surpresas. Conheci o cinema falado, o sorvete. Vi figuras humanas excêntricas, enigmáticas, como só São João del-Rei sabia possuir. Criaturas de casaca, bengalas, cartolas ou chapéu de palheta. Conheci seus sítios tradicionais: — Morro da Forca, Calaboca, Rio Acima, Matozinhos, com sua Estação de Chagas Dória, local do histórico Capão da Traição, da Guerra dos Emboabas, Tijuco, Rua da Fábrica, com seus pomares e italianos jogando bocha nos planos junto ao leito da estrada de ferro. São João del-Rei, que repetirei sempre com todas as letras e não apenas o São João vulgar, plebeu de, tantos outros lugares, pois que aquele tem de muita nobreza, não fora ele “del-Rei”. Vi seus tipos populares. E quantos! O orador da ponte da cadeia estava sempre por ali. Bastava que alguns estudantes o aplaudissem e lá estava ele, encarapitado em uma de suas laterais, defendendo o café brasileiro. (...) A mudinha, sempre paquerada, em sua feiúra, em sua miséria, em seu abandono. Respondendo aos galanteios com a ameaça de um porrete que trazia sempre, para abrandar a sua manqueira, e que culminou, muitos anos mais tarde, sendo violentada por um paquera, que não brincava apenas, como os demais, mas que acabou por estuprá-la, afrontando toda aquela comunidade. (...) Sem querer polemizar se sorvete e picolé são a mesma coisa, a verdade é que, ao afirmar que só então fiquei conhecendo o sorvete, devo confessar que já conhecia picolé. Em qualquer lugar já se conhecia aquela mistura de água com essência fraca, congelada em torno de um pequeno pedaço de madeira. Mas o sorvete de São João del-Rei já apresentava grande aprimoramento em sua confecção. Os da Sorveteria Polar e da Leiteria Mansur primavam pela boa qualidade do produto. (...) A cidade e o ginásio eram igualmente grandes. Um merecia o outro. Este completamente equipado de salas, laboratórios, teatro, locais de lazer, inclusive três campos de futebol, possuía tudo que um grande estabelecimento de ensino precisava ter. A cidade, por seu turno, era, para os parâmetros da época, uma cidade de porte médio, com todos os recursos de então. Frei Norbertinho, um dos holandeses de saudosa memória, costumava dizer com sua voz aguda e com sua maneira cheia de trejeitos: — É raro na Europa uma cidade tão bem iluminada quanto São João del-Rei. Mas o que os freis eram realmente fanáticos era no futebol. Naqueles tempos os moços só iam estudar mais velhos. Até que pudessem desgarrar da saia das mamães, já estavam errados. Por isso tornava-se possível a formação de bons times de futebol com ginasianos. E o Esparta era um time famoso, brilhante. E os freis torciam, gritavam, esperneavam, invadiam o campo, brigavam. Alguns chegavam a excessos tais, que acabavam punidos por seus superiores. Frei Lau era um deles. Muitas vezes era proibido de ir ao campo. Ficava lá do seu quarto, no andar mais alto, de binóculo em punho, curtindo, à distância, os lances emocionantes dos meninos do Esparta. Outra atividade que os freis cultivavam com o maior ímpeto, era o tabagismo. Quando entravam em aula, tiravam de seus imensos bolsos uma verdadeira tabacaria: — Cigarros de palha e de papel, para enrolar, duas, três marcas de cigarros já prontos, charutos e cachimbos de mil e um formatos. Era um nunca acabar de soltar fumaça pelas narinas e boca. Comentava-se que quando era batizada uma criança holandesa, esta já recebia de presente uma caixa de charutos. Não sei até onde isso é verdadeiro, mas realmente havia esse comentário. Já que estamos falando sobre holandeses, andei fazendo um estudo sobre os moinhos de vento da Holanda e cheguei à conclusão que os mesmos têm muita analogia como badalar constante e diário dos sinos de São João del-Rei, no que representam para o meio social dos gringos e dos emboabas mineiros. A posição das pás dos moinhos, tal qual a batida dos sinos, transmitem mensagens de alegria, de dor e até individualizam pessoas, para os entendedores de seus segredos. Só os iniciados os entendem, mas suas mensagens são autênticas e palpáveis.
A cidade reiniciava àquela época, um novo ciclo do ouro. A Serra do Lenheiro, já tão cheia de cicatrizes, desde os tempos da colônia, voltava a regurgitar de garimpeiros, que se espalhavam até pelo centro da cidade, bateiando no rio Lenheiro, que corta o seu centro. E com êxito. Alguns ricos já começavam a surgir. O rio Lenheiro tem praia e cais. Este é a amurada que margeia o curso d`água, de um lado e de outro. A praia é o espaço entre aquelas amuradas, por sinal bastante amplo. Tão grande é aquela área, com uma água mirradinha cortando o seu centro que, quem nunca presenciou uma chuva pesada nas cabeceiras daquele rio, não pode conceber a imensidão de água que desce pelo seu leito, preenchendo todos aqueles espaços e mesmo transbordando por sobre as várias pontes ali existentes .

Fonte: (São João del-Rei SEUS COLÉGIOS E OUTRAS LEMBRANÇAS - Jarbas Albricker - Belo Horizonte -1984)

Um comentário:

  1. Não reconheci a foto do colegio que quando estudei interno em 1967 e 68 já era bem ampliado.O ano que infelizmente incendiou parte do segundo andar do gabinete de quimica e fisica e a capela dos internos, alunos se ofereceram como bombeiro volunatario.O relato é bem real pena que sendo a maioria dos alunos serem de fora sentia ociosos não nos contaram a bela historia de São João Del Rei que foi a melhor cidade de Minas no seculo XIX e seu transporte sede da Estrada de Ferro Oeste de Minas.Valeu o tempo com os colegas e freis Serafico,Augusto,Jordano,Geraldo,Metelo,Manoel,Paciano,¨Tiubimba¨,Diogo e Orlando, o projetista de filmes.
    José Marcos Rocha Ribeiro,58 BH/MG

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