sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Artigo do Frei Cristóvão: A conquista da liberdade.

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo Frei Cristóvão.

A CONQUISTA DA LIBERDADE – A HISTÓRIA DOS DOIS CACHORROS

“Não há liberdade sem um mínimo de justiça”(FC)

Quando professor de sociologia na FADOM, Divinópolis, o tema da liberdade sempre aflorava nas discussões em plena aula. Além do enfoque de cunho filosófico a propósito do tema, puxava mais por uma compreensão do que venha ser liberdade, numa conceituação sociológica. Dava como tarefa para a turma desenvolver nas provas a tese: “O Homem é produto Meio”. Teriam que fundamentar até onde o aforisma continha de verdade ou não.
Sociologicamente, a liberdade de cada pessoa é condicionada por sua herança genotípica e filotípica. Ilustrava minha exposição com o exemplo de um animal bravio.

Quanto mais for raivoso, agressivo, mais apertada deveria ser a coleira no pescoço; como também a extensão da corda que o mantém preso. O limite de seu espaço de vida corresponde com os limites de sua iracibilidade. Já para o animal de índole dócil carece de coleira e de corda no pescoço. O seu espaço existencial é bem amplo.

È sabido, no meio popular, que um cachorro vira-lata goza de mais liberdade e tem mais resistência para enfrentar as intempéries da vida do que um cachorro burguês de madame, cheia de salameleques e nove-horas. O seu cachorro recebe um tratamento especial; sua alimentação supera em calorias e proteínas à alimentação do vira-lata lá da favela.

O caso se deu em Paris. O cachorro, como de costume, tinha seu vezo de pernoitar no mesmo bairro Saint Elisée. Afinal, lá não lhe faltavam tantas latas de lixo com apetitosos restos de comida dos luxuosos apartamentos da famosa avenida da capital francesa. Sendo exímio vira-lata, não lhe custava muito virar as latas de lixo, de preferência à noite, para não ser molestado pelos transeuntes, ou por um soldado mal encarado!

Um belo dia, em plena noite, o dondoca do cachorrinho da madame conseguira fugir. Virando pra cá e pra acolá despencou escada abaixo e foi parar na avenida. Ficou deslumbrado com tanta luz e tanto espaço à sua frente. Bem em frente ao edifício lá estava o nosso vira-lata, na sua ronda noturna em busca de comida. Viram-se, se cheiravam e coisa e tal!
O vira-lata matou a charada: esse pobre coitado não entende é de nada a não ser de seu espaço no apartamento da madame. Pensou consigo: vou passar uma peça nesse burguesinho parisiense!
-Vamos passear. Vou lhe mostrar as belezas da assim chamada “Cidade das Luzes”
E lá se foram cidade afora. O vira-lata projetara um esquema de tal monta que o coleguinha da noite haveria de se perder e assim teria que aprender a se virar como ele para sobreviver. Não deu outra: de burguês haveria de se tornar cidadão comum, como a maioria dos habitantes de Paris. De burguês se transformaria num republicano, um democrata. Mas antes teria de passar pelo estágio de vida de um vira-lata como ele. Na rua da amargura haveria de aprender que nós cachorros temos a mesma dignidade: de ser da mesma espécie, e gozar do atributo de ser o maior amigo do Homem.

Depois de muito passear, o cachorrinho burguês se sentiu cansado, com sede e muita fome.
- Hei, meu amigo, em qual restaurante vamos parar para o jantar?
- Restaurante? Jantar? Meu caro, você não está sonhando não?
- Então, foi aquela choradeira sem fim!
- Então, me leve para meu apartamento. Lá a gente tem de tudo. Não falta nada. Você até que poderia viver conosco; sinto-me muito só! Mas arrematou: - Você tem que passar por uma reciclagem, aprender a se comportar como gente. Nada de latir alto, fazer cocô em qualquer lugar e perder esta mania de urinar em qualquer poste. Imagine você urinando nos pés da mesa da sala-de-estar da minha querida madame!
- Foi quando o vira-lata se sentiu ferido nos seus brios:
- Oh seu fdp, vai para pqp! Não troco nunca minha vida, minha liberdade por uma merda de apartamento de sua madame. Tenho a cidade toda como meu espaço vital e nunca passo fome; em cada esquina tenho uma lata de lixo onde encontro muita coisa para matar minha fome. Em caso de sede, sei muito bem encontrar um chafariz onde borbulham águas cristalinas de seus repuxos! Tchau e bênção! Passar bem!

Moral da história: a liberdade é a gente quem a conquista. Basta aprender com a vida, sábia mestra, a governar nosso entorno, nossos condicionamentos genotípicos e filotípicos.
A.Gasset nos deixou esta lição: Quem é o Homem?
“É ele e suas circunstâncias”

Frei Cristóvão Pereira ofm.
freicristovao@gmail.com
Praça S.Francisco das Chagas, Carlos Prates, BH, 29/o1/2008.

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