quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Artigo do Frei Cristóvão: A ambiguidade do Governo Lula.

Leia mais um artigo enviado pelo Frei Cristóvão. O artigo estava perdido desde outubro de 2007, mas como é sobre o pensamento dele sobre política não está muito desatualizado não.
Tem outros artigos à espera, bem como um do Rosário.

A AMBIGUIDADE DO GOVERNO LULA

A Classe média ficou a ver navios!

Nas últimas eleições majoritárias (2006), alguém me interpelou, à queima roupa, durante um encontro que coordenava sobre “Iniciação Política e Análise de Conjuntura”:
- Frei, você vai votar no Lula “?”.
- Respondi: “Ruim com ele, pior sem ele”?

Nosso regime político presidencialista carrega consigo graves mazelas que devem ser revistas. Constitucionalmente seria da competência do Congresso Nacional fazê-lo. Como não é de interesse do Congresso abrir mão de seus interesses partidários e, sobretudo, de seus interesses políticos pessoais, a Reforma Político-Eleitoral vai sendo postergada enquanto possível; não obstante o aprimoramento da consciência cidadã do povo, dos eleitores.

Em caso de omissão e cumplicidade dos senhores parlamentares, a insatisfação e pressão do eleitorado consciente forçam o Poder Judiciário a cobrir essa lacuna. Veja o caso recente da aprovação da fidelidade partidária por parte do Supremo Tribunal Federal. A concessão de anistia aos candidatos que trocaram de sigla partidária antes da histórica declaração positiva do Supremo Tribunal Eleitoral (27 de março-2007), foi uma medida cautelar no intuito de evitar um recrudescimento da crise política que vem desacreditando o Poder Legislativo, desde o início do segundo governo de Lula.

O atual regime presidencialista seria como a causa primeira deste mal-estar. O presidente, uma vez eleito, goza de privilégios exorbitantes, quase ditatoriais:

- Tem em suas mãos o poder de nomear mais de 25 mil.cargos públicos, no primeiro, segundo e terceiro escalões;

- O recurso, quase indiscriminado, de emitir Medidas Provisórias, atravancando a pauta do dia-a-dia do Congresso Nacional na sua função precípua de legislar e monitorar as ações do Poder Executivo;

- O poder de aliciar congressistas com a liberação de verbas para que esses atendam seus “currais” eleitorais. Com isso ambos, não obstante a crise e a insatisfação do eleitorado, conseguem se manter no Poder. Uma revisão do estatuto da Lei Orçamentária da União vai-se tornando indispensável e necessária. Temos o círculo vicioso de que o Governo, para garantir sua maioria no Congresso, favorece seus aliados; esses, por sua vez, para garantir sua permanência no cargo, têm que mostrar serviço junto às suas bases;

- As coligações tornam-se inevitáveis, tendo em vista que partido nenhum tem força política para galgar, isoladamente, ao Poder. Uma vez eleito, o presidente, vê-se comprometido na distribuição do butim; o que vai limitar seu poder político em termos de execução do Projeto, tão badalado, no período eleitoral.

- Neste sentido, penso eu, é que devemos interpretar e entender o governo do atual presidente da República, já no seu segundo mandato.

- Para se eleger assume compromisso com a elite financeiro-comercial-industrial-rural (a Oligarquia Econômica – os “home” do dinheiro – o “poder delta”, já que foram o financiadores da Campanha e detêm a grande imprensa escrita, falada e televisionada, na qualidade de proprietários ou de seus alocatários).

- O povão, sofrido e lascado, constitui a maior base eleitoral; em sendo assim, torna-se imperioso atender, pelo menos, parte de suas necessidades e reivindicações. O programa “Bolsa-Família” atende mais de 11 milhões de famílias. Ora, segundo as leis da estatística são, pelo menos, 3 votos assegurados, por família! O candidato-presidente, parte para a liça da disputa eleitoral, com a larga vantagem de 33 milhões de votos.

- Ora, como fica a classe média? Com sua mentalidade “pequeno burguesa”, rala noite e dia para garantir um determinado poder aquisitivo com os olhos gordos no que a classe alta tem e consome!

- As pesquisas de Ibope evidenciam que a classe média media e a classe média alta mostram-se insatisfeitas com o Governo Lula. Não só não votam em sua pessoa, como também, o critica com amargura e virulência. A rejeição ao Governo Lula, torna-se mais evidente em correlação com o grau de instrução do eleitor.

- Sabedor deste quadro o Sr. Presidente vai levando o barco da governância satisfazendo a elite oligárquica, dona dos meios de produção; atendendo, pontualmente, ao povo com seus programas sociais, tachados de assistencialistas, mas que não deixam de ser positivos, a longo prazo, quanto à melhoria de vida deste eleitorado, carente de tudo. O retorno, em termos de urnas, é notório.

- Quanto à classe média, faz pensar na observação que se costuma fazer quando alguém se opõe a uma mudança que venha beneficiar à maioria, encabeçada por alguém que está no Poder e pretende nele continuar: “Enquanto a carruagem passa, os cães latem”!

- Votei sim em Lula. E, hoje, sou um coerente e leal opositor, dando o melhor de mim no sentido de fortalecer a conscientização, a mobilização e a organização do Povo na conquista de seu direito do exercício de sua cidadania ativa. Afinal, o povo é mais que ator de todo e qualquer poder. É seu autor, sua fonte!

- Sem povo consciente e organizado a História não avança.

Frei Cristóvão Pereira ofm.
freicristovao@gmail.com
Convento S.Francisco das Chagas, Belo Horizonte, 06/10/2007.

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