sábado, janeiro 19, 2008

Artigo do Frei Cristóvão: A Pedra de Nanuque.

Leia abaixo mais um artigo enviado pelo Frei Cristóvão. Ele enviou 4 de uma tacada só. Quando ele vai lá na nossa cervejinha das quintas-feiras, além de distribuir a fumaça dos seus cachimbos e/ou charutos, ele leva, também, cópias dos artigos dele e sai distribuindo para quem vai chegando na mesa.

A PEDRA DE NANUQUE

A Pedra - as Torres - a Avenida

Retornando à Nanuque, depois de cinco meses ausente, ainda no ônibus, voltei-me, reverente, para a “Pedra de Nanuque”, foi quando me assustei ao deparar com as torres no seu cimo. Meu Deus que aberração!

No meu entender, as torres no topo da “Pedra de Nanuque”, constitui um verdadeiro estupro ecológico e estético ao visual central da cidade.

Mais uma vez os interesses econômico-financeiros prevaleceram, como sói acontecer no sistema neoliberal (Neoliberalismo Econômico), sobre valores tais como Ecologia e Qualidade de Vida. O que, afinal, não é de causar espécie, levando em conta a ideologia capitalista, agora, mundializada pelo neoliberalismo econômico excludente. (Globalização financeira-industrial).

Refiro-me à parafernália tecnológica que alimenta uma “Sociedade de Abundância”, tornando-nos escravos do consumismo galopante, depredatório e excludente. Apenas 1/3 da humanidade dela se beneficia.

Esse, por sua vez, ameaça o ecossistema global (efeito estufa, aquecimento global, mudanças climáticas, migrações em grande escala etc.). Um simples exemplo: a duração de vida de um carro de passeio na Europa é de dois anos, após o que é vendido como sucata! Na Europa, Canadá e EUA o conserto de qualquer eletrodoméstico fica mais caro do que o valor de um novo!


Beleza e Bondade (“Kálos kai kágatós”)

Os gregos amavam o belo, o bonito e a ordem. Deles herdamos a expressão “Kósmos”. Daí o conceito: cosmético. Já os romanos utilizavam a expressão “mundus”, o que vem a ser limpo, bonito. Portanto, eram sensíveis ao que é bom e bonito aos olhos e ao coração. Daí também o seu culto ao corpo.

Estamos navegando no mundo da estética, da beleza, da gratuidade, da jovialidade, do amor. Uma pessoa bonita e bela, na interioridade do seu ser, reflete e expande essas qualidades, próprias e específicas do ser de Deus.


Juventude

Juventude, ser jovem não é questão de tempo, de idade; mas, antes de tudo, de cabeça, de mentalidade, daquilo que roda na nossa mente e externamos com nossa linguagem, com os nossos gestos; numa palavra: com o nosso modo de viver. É uma maneira de ser e viver que vamos construindo para nós mesmos no percurso de nossa vida.


Ócio – Negócio (Otium – Negotium).

O mundo do negócio (“nex”: não, ausência de), é o mundo do mercado, da compra e venda, da oferta e procura. O mundo “cão”, bruto e desumano da Economia: produzir, vender, barganhar com interesse, visando a mais-valia, o lucro: “amigo, amizade à parte, estamos fazendo negócio”!

Uma rosa, um poema, uma sinfonia, um gesto de carinho e amizade, são valores de ordem qualitativa. Para eles não há preço. Estamos no mundo da gratuidade!

Veja o que a antropologia do cotidiano nos ensina: o drama de tantos aposentados; é, justamente, de como gozar o resto de sua vida num clima de ociosidade criativa”! De como preencher o tempo com algo de útil; com algo que o faça crescer no ser, como pessoa, gente, cidadão (Uma boa leitura, um bom filme, um curso de reciclagem humana, boa música, esporte, uma viagem, participar de um grupo de voluntários, uma viagem turística e tantas coisas mais!

A mulher, a esposa não suporta um marmanjo à-toa, o dia inteiro em casa; principalmente, metendo o bedelho na cozinha!


Cartão Postal

A “Pedra de Nanuque” é, por excelência, o “Cartão Postal” da cidade, sem esquecer as curvas sinuosas e as águas plácidas do rio Mucuri e a beleza morena de suas mulheres!

Pois bem, no meu modo de vislumbrar as coisas, com as torres no seu topo, o cartão postal da cidade, foi borrado! Ecologicamente falando, foi estuprado! O mesmo pode se dizer dos dois placares luminosos, placares comerciais, na avenida Santos Dumont. Verdadeiras aberrações em termos de poluição ambiental. Quebra a beleza da avenida central da cidade que tem seu início na cabeça da ponte e vai terminar na curva que dá acesso ao bairro Vila Nova. Não custa nada demovê-los. Somente um pouco de sensibilidade estética e um pingo de amor à cidade. De um gesto de cidadania!

Uma Crendice Popular

Corre de geração para geração, entre os moradores de Nanuque a crendice de que a Pedra tem seu segredo, seu feitiço! “Quem nela subir jamais deixará Nanuque”! Se deixá-la, fisicamente, a ela ficará preso afetivamente. Em Nanuque terão o coração aprisionado.


O Estouro da boiada

Os moradores mais antigos da cidade presenciaram o fato. Isso aconteceu na década de sessenta: o estouro da boiada. O Sr. Ary Santos era conhecido na região como mercador de gado. Em Nanuque comprou do Sr. Manoel Durvalino um lote de cem novilhas. O gado, confinado no curral, certamente tenha sido molestado por um enxame de abelhas ou de marimbondos.

E boiada quando estoura, é um deus-nos acuda! Arrebentou a cerca e desembestou estrada afora em direção da cidade; alcançando o pé da Pedra, como que guiado por intuição instintiva, percebeu o caminhador em direção ao cimo da Pedra. Não deu outra! A primeira alerta foi dada pelas lavadeiras no seu serviço nas margens do rio. Uma verdadeira hecatombe!

Pessoas outras que presenciaram o trágico espetáculo diziam: “Parece coisa do cão”! Já outros preferem dizer: “Quê isso, cumpade”? Vira essa boca prá lá”! O fulano retrucou: “Tá bem! Tá bem”! “Parecia coisa de cinema”! Um terceiro, traindo sua veia evangélica, exclamou: “uma verdadeira cena apocalíptica”! (os dados sobre esse evento os colhi de Tóte e Iodélio.


Apelo

Com o tempo, no caminhar da carruagem da História, as coisas poderão se ajeitar. Resgatar o que há de mais bonito e belo, ecologicamente falando, de nossa Nanuque. O visual majestoso da “Pedra de Nanuque e a imponência de sua avenida central.

Grato

Pedra Negra (Nanuque), 22/11/2007.

Frei Cristóvão Pereira ofm.

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