domingo, dezembro 30, 2007

Poemas do Ronald Claver

Leia abaixo alguns "poemas enluarados para a virada do ano" enviados pelo Ronald Claver.


POEMAS ENLUARADOS ALGUNS NEM TANTO
RonaldClaver



OS DESCAMINHOS DO CORAÇÃO

Meu coração está parado na esquina
Do mundo
À espera do primeiro tiro ou ternura
Estou do outro lado do mundo
Às margens da vida e do lado esquerdo da morte
Sob o signo do amor e da loucura.

Por que não nos lambuzamos de sexo e sêmen
E na mistura dos corpos deixamos gravados
No lençol
A transparência do amor
Seu risco e vôo.

E depois espelhar meu corpo
No seu corpo, baralhar as mãos
Deslizar os pêlos, disfarçar a dor
E virar de avesso o coração.

Múltiplo de mim estou perdido
Em seu olho e giro
Giramos
Á procura de uma porta, fresta,
Túnel ou luz

Quero dizer que te amo
Mesmo quando adiamos o amor
Ou viajamos outros corações

Estou no centro do mundo
Estou no centro de seu coração
E circulo em seu sangue
As asperezas do ofício de amar.



TÍMIDO ESTE CORAÇÃO


Meu coração , este tímido e trágico
Coração, acomodado aos relâmpagos
E relevos dos corpo acorda
Em seus olhos a ferocidade
Deste amor que é fogo, fúria.

Nós que já traçamos no lençol
As rotas do coração, tatuamos
Na carne as marcas e garras
As facas e farpas, paisagens
Painéis, viagens

Estamos à deriva da paixão e da carne
E consumimos pele a pele, pêlo a pêlo
Trilha a trilha o avesso e a transparência
Do amor que é água e às vezes, ilha.

Tímido este coração é trágica sua nudez
E fome que ruboriza e acelera
Ao simples rumor de seu nome.



DOS ENLUARADOS

Só o amor
Pode curar
O amor só,
Só o amor
Procura
Nas curvas da paixão
O abandono dos desvairados
Dos enamorados,
Dos enluarados
O amor só
Não cura o amor
Só o amor
Queira-me livre
Leve, levemente
Dolorido de luar

Beba-me
Com a sede
De seus rios

Beija-me
Com os beijos
De sua boca

Queira-me
Com os quereres
De sua ternura

Deseje-me
Com as carícias
De sua paixão

Te quero perto
Do coração
Dentro do coração
Dos olhos
De corpo inteiro

GOSTOSURAS DO QUERER

Prefiro o ócio ao ofício
E o doce pecado do cio.

Nunca temperei corações glaciais
Prefiro paixões passionais.

Não resolvi a equação dos corações
Racionais, prefiro os tropicais.

Em minha matemática do amor a soma de dois
Resulta em um, já que um é a soma de dois.

Confesso que amansei o galope das tempestades
Bebi noites de açoites e exílios.

Nada sei da rota das especiarias
Mas aportei em seu porto a partir das calmarias

Me rendi ao tecer com dedos de bilro
As rendas de seu coração

Quero provocar o vulcão que guarda
No lado esquerdo da sedução

Invento palavras, descubro paisagens, viajo secretos códigos, visito impossíveis ilhas e traço no limite de seu corpo a trilha da paixão.

Prefiro o ofício do ócio e o deleite do cio e
A gostosura de te querer sem usura.

LUA DAQUELE TEMPO

Quando a lua parnasiana e pálida aparece redonda vagalumeando na outra margem do rio meus sonhos são verdes e imaturos. Os seios da moça amada, imaginada são luas que quartocrescem nos olhos e no desejo. Quando mocinhos e bandidos duelam ao sol, Marilyn Monroe é pecado que mora no lado esquerdo. Quando do outro lado da rua, a lua – atlântica e romântica- ilumina minhas lembranças, Brigitte Bardot, minha namorada nada secreta, escorre em mim, água sempre morna, no banheiro do colégio interno, onde Deus tudo vê, espreita e pune. Quando o topete de Elvis Presley é minha guitarra e não danço o último tango de Brando em Paris e Garrincha entorta o mundo com seu jeito de torto de driblar a vida, a lua é moderna e poluída sem brilho, violão ou janela. É elétrica e dá choque.

A LUA

A lua tem dois lados
O lado que vemos
E o lado que desejamos ver

De um lado tem Jorge
Ogum guerreiro passeando
Num mar de tranqüilidade
Com as botas astronautas

Do outro lado é onde
Reside o mel da sedução
O possível paraíso
O porto inseguro do amor

É lá que você está
E para lá que quero ir.

A lua do espelho

E se de repente eu me perder
Nos ermos de seu corpo
E esquecer que te prometi
A lua?

E se de repente eu quebrar
O espelho e te vir
Transparente e nua?

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