segunda-feira, dezembro 10, 2007

Artigo sobre Dom Caprio

Leia abaixo um artigo enviado pelo Frei Oton, que está estudando em Roma, sobre o bispo que está fazendo greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco e contra a obrigatoriedade que o PT tem de pagar a ajuda de campanha recebida das grandes construtoras.


Sobre a Santidade do tempo presente – resposta

Há pessoas que dizem que Dom Cappio é "louco", outras que ele é santo. Acho que ele é “louco", pois, somente os "loucos" são capazes de desafiar a si mesmos para fazer valer o seu testemunho. Somente os "loucos" querem dar sentido às suas palavras e sermões, pois, do contrário ficariam vazias. São os "loucos" que abraçam tudo num eterno abandono de si mesmos.
Os santos são, na verdade, os "loucos" que já estão canonizados em nossos altares. É a loucura da cruz!
No Brasil vejo a Igreja se manifestar de forma passiva ou, para alguns muitos - digo poucos - de forma quase neutra. Pergunto-me o que será que falta, qual é o empurrão para que possamos dar verdadeiramente o testemunho evangélico? Será que minha mente concorda com a mente de Cristo? Será que meu coração comunga dos mesmos desejos do coração de Cristo?
Acho que a resposta vem quando não pluralizamos os problemas, ou seja, quando somos capazes de assumir as coisas e tomar partido.
Digo mais uma vez que não é somente os ribeirinhos e outros povos que do Rio vivem que sairão perdendo; não somos apenas nós que perderemos com a transposição do Rio. Mas há todo um ecossistema que lá vive e que não pode ser perdido.
Ainda somos muito antropocêntricos e lamento cantarmos tão pouco o Cântico das Criaturas que um dia São Francisco compôs nas pautas de sua própria vida.

* Meu bom amigo e companheiro de sonhos, você diz algo que me fez mexer na cadeira enquanto lia, ao tocar na essência da vida cristã, chamada à santidade e plenitude de vida.
Muito falamos hoje de compromissos éticos e, sem dúvida, a ordem do dia aplaudirá quem disser disso, da ecologia e da espiritualidade. Mas para os amantes dos passos do Deus-Homem de Belém, o compromisso ético é ainda pouco: somos chamados à santificar nossas vidas, relações e ambientes; distribuir o sorriso de Deus a tantos que não pode mais sorrir.
Isso nada tem a ver com abstrações metafísicas, mas seguindo a lógica judaica, tem a ver muito mais com o concreto dos sentidos: comer, beber, cheirar, ouvir, tocar. “O Reino é como árvore onde os pássaros poderão habitar e como fermento no que se irá comer”(Mt 13, 33).
Pobres de nós, tendo à frente um sonho tão belo e nos bater à face a realidade sofrida da contradição.
Talvez tenhamos medo, talvez sejamos ignorantes demais para percebermos os passos do Criador a passear por seu jardim (cf. Gn 3,8), talvez não consigamos – sei lá por quê – perceber os sinais de santidade que nos batem à porta.
Você lembra bem o paralelo entre santidade e loucura. A lista seria imensa se passássemos a história encontrando homens e mulheres santos e loucos, não só na sacristia cristã: basta lembrar do chamado de uma nação inteira a rechaçar seus invasores pela força da não–violência na Índia no período entre guerras; ou ainda voltar o olhar à Assis medieval para recordarmos da loucura do filho do comerciante que se via feliz por morar entre leprosos e mendigos de rua.
Faço um alerta: nada deve nos conduzir a uma religiosidade de macerações, sacrifícios desumanos, como se isso agradasse ao Bom Deus, ou para aplacar a sua ira, como muito já se fez (e se faz). Santidade certamente não é isto, mas testemunho do evangelho entre as pessoas que se encontra no caminho.
Em comum, santos e loucos têm o fato de serem anormais: vêem (ou não vêem) o mundo com os olhos que os demais não são capazes. Diante desse olhar, comportam-se de maneira estranha, causando galhofa ou de piedade em quem os vê.
Ao contrário dos loucos, os santos fazem suas opções em lucidez, mas na extrema coragem de vender um terreno inteiro para comprar a pérola encontrada, ou darão festa por causa de uma única moeda (Mt 13, 31; Lc 15, 6).
Reconhecer os santos e santas à nossa volta não tem sido fácil, uma vez que não basta – pode ser um começo – estar ajoelhados nas igrejas, jejuar duas vezes por semana ou pagar o dízimo de todos os seus haveres (cf. Lc 18, 12). Ser santos e santas é ainda mais complicado.
O que seriam exemplos de atitudes concretas desse testemunho evangélico em nosso tempo? Usar as armas de jejum e oração para vencer impérios grandiosos de interesses monetários, uma vez que certas coisas só podem ser vencidas desse modo (cf. Mt 17,20)?
No caso que temos acompanhado, não se trata somente de um rio, mas também de suas margens, e quantos que nela construíram a vida.
Quero dizer que nosso irmão bispo seja um santo? Não nos cabe tal afirmação, mas se há um paralelo entre santidade e loucura, digo:
Jejuar e rezar por um rio e os de suas margens é grande testemunho profético-evangélico: grande loucura.

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