sábado, março 18, 2006

Artigo do Frei Cristóvão: Eleição.

Leia abaixo mais um artigo do frei Cristóvão.

ELEIÇÕES: DIVISOR DE ÁGUAS.

O VOTO É UMA OPÇÃO.

Todo período eleitoral é tempo quente, de efervescência ideológica. Tempo de divisor de águas. Torna-se difícil bancar o eterno camaleão!

A gente é forçada a se posicionar! Por outro lado é tempo de maior conscientização. Queira ou não os problemas nacionais, estaduais e locais se afloram e perspectivas de solução são ventiladas na grande imprensa, nos debates com diversos segmentos da sociedade e popularizados nas grandes concentrações, nos comícios.

Os candidatos se armam de uma assessoria polissêmica e os especialistas em publicidade arregaçam as mangas e têm a sua chance de ganhar um dinheirinho a mais! Nem carece de falar das pesquisas de opinião pública, nas mais das vezes recomendadas pelos respectivos candidatos ou apoiadores.
Uma reforma política deve ter por objetivo moralizar a campanha, estreitar os limites do “marketing” eleitoral; com isso neutralizar o poder econômico, criando com isso mais igualdade de eleição extensiva a todos os partidos e candidatos. O projeto político ganha mais força em detrimento ao poder econômico.

Portanto, tempo de eleições, a gente tem que decidir, tomar posição, votar em fulano ou sicrano, que por sua vez, por exigência da lei eleitoral, tem que estar filiado a um determinado partido que também se escuda num programa político e este se cristaliza num projeto político, num modo de conceber e organizar a Sociedade, que é a Casa-Comum de todos nós.

Veja o que está ocorrendo, no momento, no mundo da Política, mormente, nas CPIs. O que é mais grave: o atropelamento entre os Poderes. São prenúncios de uma Campanha Eleitoral biliosa, quando então, a “Lei-do-Vale” campearia livremente. A coisa se complica e até parece briga de família! Afinal que diferença há entre os candidatos, entre os Partidos em termos de Projeto Nacional, uma vez que a ortodoxia econômica de quem detém o Poder não difere da Proposta de quem pretende assumi-lo! As diferenças são pontuais e não estruturais. O que acirra a disputa entre os grupos políticos. O que interessa é ter o Poder (o Estado) em mãos e não transformá-lo num instrumento de mais Justiça para todos.

Nesse universo litigioso não se definir, não tomar posição já é uma posição. A indiferença política, ser apolítico, além de ser uma postura cômoda e reforçar a situação, deixa espaço aberto para os políticos corruptos, o abuso do exercício do poder público.

Para o cristão, além de omissão, mostra a pequenez de sua fé, o tamanho do Deus em quem deposita sua esperança. Um Deus bem distante do Deus de Jesus de Nazaré que é um Deus-Ético, comprometido com a VIDA, com a JUSTIÇA para todos e não para uma minoria privilegiada. É o “Emanuel” o Deus conosco.

Exerça a sua cidadania, vote, vote conscientemente, pensando alto, pensando no povão, na maioria dos empobrecidos, os excluídos. Com isso estará exercendo “a caridade política”, na feliz expressão de Paulo VI (“Populorum Progressio”).

Frei Cristóvão Pereira ofm.
freicristovao@gmail.com

quarta-feira, março 15, 2006

Artigo do Frei Cristóvão: O seu voto.

Leia abaixo artigo do Frei Cristóvão.

O SEU VOTO VALE O QUE VOCÊ VALE

O seu voto é a sua fala

A campanha vai se aquecendo à medida que os presidenciáveis mostram suas caras e pretensões e na proporção do encurtamento do prazo das convenções previsto por lei.

A descrença na política, ou melhor dizendo: “nos nossos políticos e nas instituições políticas” (partidos, poder executivo, legislativo e judiciário, em suas instâncias municipal, estadual e federal); no próprio processo eleitoral, salta aos olhos. E há razões por demais suficientes para isso.

Essas são múltiplas, entre as quais destacamos: a debilidade de nossa democracia, as desigualdades sociais, a fragilidade de nossa legislação eleitoral, As CPIs terminando em pizza, a malversação dos recursos públicos, o peso do dinheiro no financiamento de campanhas, o famosa “caixa – dois” (e o dinheiro cada vez mais minguado no bolso do povo); os profissionais do ramo, “carreiristas“ fazendo da política meio de vida, maneira de se arranjar, vencer na vida, se locupletar. E não podemos esquecer a dança das pesquisas, sua força de penetração no imaginário popular, na sua margem de subjetividade e de manipulação.
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Tudo explica essa descrença geral. Isso é sério e muito grave. O que está em jogo são as instituições democráticas, a própria Democracia. Urge resgatar nosso direito de ser cidadão e participar, conscientemente, no processo de construção desta “Casa Comum“ que queremos, não só para nós, mas para todos que nela convivem.
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Concretamente, descrer na Política, não votar, além de pôr em risco o processo democrático, é dar o espaço aberto para que os políticos corruptos, os “carreiristas“, os “profissionais“ e os “picaretas“ ocupem-no. Espaço esse que deve ser preenchido e exercido por nós, pelos que levam a Política a sério, fazendo dela um instrumento legal para reverter o quadro, mudar a situação. Cabe a esses e a nós construirmos e cuidarmos de nossa “Casa“

Não votar, votar mal é “entregar aos cabritos para que eles cuidem de nossa horta”

Vamos fechar estas linhas com uma reflexão filosófica. Foram os gregos, especificamente, a escola aristotélica, que nos deixou esta lição.

O homem se descobre homem vivendo junto com os outros homens, na polis (família, tribo, clã, cidade, estado, nação). O Homem é um animal político, vive na Polis, com a sua organização (Direito-Lei-Constituição, Regimento Interno-Estatuto); toma consciência de que é cidadão, alguém que vive e é responsável por esta Cidade maior, a Casa de todos, vivendo com e junto com os outros. Nós não existimos, co-existimos.

O voto é a sua fala, e você manifesta o que é, seu ser, pela sua fala! O valor que você dá ao seu voto é o valor que você dá a si mesmo. O SEU VOTO VALE O QUE VOCÊ VALE!
O voto, a pessoa em quem você vota, o apoio ao partido no qual está inscrito, com o seu respectivo projeto de Sociedade que defende, revela a grandeza de seu coração.
Ele é a expressão de seu amor para com a sua Cidade, seu Estado, a Nação que queremos para todos. Ele é a expressão de sua fala; expressa o que você é perante você mesmo e o cuidado que você tem pela nossa Casa Comum.

Frei Cristóvão Pereira ofm.
freicristovao@gmail.com

Texto do Frei Cristóvão: Um novo concílio.

Leia abaixo mais um artigo do Frei Cristóvão:

UM NOVO CONCÍLIO ECUMÊNICO ?

A necessidade vai se impondo e a consciência crescendo

É uma verdade da qual não se pode fugir, seria como que querer “tapar o sol com a peneira”, segundo o dito popular. A consciência desta necessidade vem tomando vulto não só entre as fileiras do clero e dos teólogos como também entre os fiéis mais esclarecidos. O que, na Igreja, mais precisamente, no Direito Canônico, chama-se de “sensus fidelium”, a opinião comum, pública dos fiéis. E, no mais, lá se vão 40 anos de quando se realizou o último concílio ecumênico. Um lapso de tempo bem curto diriam alguns. Só que de lá para cá muita água já passou debaixo da ponte, as mudanças foram muitas e rápidas, em termos políticos, econômicos, éticos, culturais, sintetizando.

Basta relembrar alguns mais importantes: a queda do Muro de Berlim, do Socialismo estatista, burocrático, o assim chamado “Socialismo Real”; os avanços da bioquímica, da genética, da medicina e seus reflexos na bioética, as mudanças nas relações de gênero, a tomada de consciência das desigualdades das relações sociais de gênero, da ameaça ecológica (ecocídio - ecoética); a jurisprudência implanta-se em termos internacionais, a criação do tribunal penal internacional, a globalização como expressão moderna do capitalismo, o neoliberalismo com as suas crises periódicas e suas pesadas e funestas conseqüências sociais em termos de fome, miséria, concentração de renda em escala mundial e a onda de violência decorrente; as guerras fratricidas entre etnias; o atentado às torres do World Trade Center, a guerra no Paquistão, no Iraque; o terrorismo globalizado, a morte de João Paulo II; eleição de Bento XVI, as mutações climáticas, o aquecimento das crostas polares. Isso entre tantos.

Por último, poderíamos apontar o avanço da consciência dos Direitos Humanos com um sempre maior desejo de democracia, de participação na construção da “Casa Comum”, da assim chamada “cidadania ativa”, na busca de superação de uma Democracia Delegativa rumo a uma Democracia Substantiva, uma Democracia não apenas política, mas também econômica e popular.

Chamamos isso de mudança de contexto global que, por sua vez, refletem e repercutem no interior da Igreja. São desafios, teologicamente, chamados de “sinais dos tempos”, pelos quais Deus nos interpela e aos quais devemos dar uma resposta, iluminados pela fé e pela razão tendo como marco referencial a mensagem evangélica.

Pois bem, esta situação, esta necessidade já se tornou voz pública no interior da Igreja durante o Sínodo da Oceanía, realizado em novembro de 1998. Neste conclave reuniram-se mais de 150 cardeais, bispos, padres, religiosos e leigos daquele continente. Uma das propostas desse sínodo foi a realização de um Concílio ecumênico, o Vaticano III, com o objetivo de introduzir a Igreja no novo milênio. Um Concílio não só voltado apenas para o enfoque de princípios gerais face à nova realidade mundial que vivemos, mas destinado a entrar ”no âmago do próprio governo da Igreja”. A proposta foi feita na presença do Papa, aproveitando-se o grande clima de liberdade reinante na aula sinodal ( Vide:Änálise de Conjuntura”, dezembro 1998,CNBB).

Baseando-me no referido documento, apresento aos leitores algumas intervenções mais “fortes” nas quais o problema da violência contra fiéis, tendo como protagonistas pessoas agindo em nome da fé religiosa, o celibato sacerdotal, a participação das comunidades cristãs nas decisões eclesiais, são destaques prioritários.

Pe. Michael Curran,superior geral dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, sublinhou “a urgente necessidade na Igreja de uma cultura do diálogo”. Existe um insistente desejo de maior comunhão eclesial e de participação “de todos os membros na vida da Igreja, nos processos de decisão e nos ministérios locais”, o que justificaria o pedido de um novo concílio ecumênico que “enfrente” de maneira direta e eficaz as questões da organização e do governo na Igreja”. Pe. Curram propôe também que as conferências episcopais possam, junto com os fiéis, indicar os próprios bispos.

Dom Patrick Dougherty, bispo da Austrália, afirmou a importância de os prelados do continente “terem confiança e liberdade para poderem falar também de temas candentes como o celibato, a escolha dos bispos, mulheres e divórcio”.

Dom Karl Hesse, administrador apostólico de Papua Nova Guiné, refletiu sobre a inculturação e as diferenças na maneira de viver a fé nas várias culturas distantes de Roma: “A Igreja afirma ser universal, mas isso não pode ser verdadeiro se não contempla de expressões capazes de inserir o Evangelho nos corações e de manifestá-lo através de sinais e símbolos culturais”.

Dom Gerard Joseph Deschamps, também de Papua Nova Guiné, pediu uma Igreja “mais descentralizada e aberta, com uma estreita relação entre clero e laicato. Quando atribuímos demasiado poder aos ministros ordenados, esquecemos o modelo de Igreja de comunhão da qual nos fala o Concílio Vaticano II.”

São vozes que nos representam, falam por todos nós. Além da oração e da ação constante do Espírito Santo, cabe a nós, cristãos adultos na fé, difundir sempre mais o que o próprio Espírito nos fala através dos “sinais dos tempos”, e tomar maior consciência de que a Igreja é uma realidade, uma instituição que deve estar em situação permanente de abertura para as reformas que se fazem necessárias. “Eclesia semper reformanda est”, a Igreja deve se manter em situação de mudança constante.

Frei Cristóvão Pereira ofm.
freicristovao@gmail.com