domingo, fevereiro 12, 2006

Artigo do Frei Cristóvão. Campanha da Fraternidade

Leia abaixo o artigo do Frei Cristóvão sobre a Campanha da Fraternidade:


CAMPANHA DA FRATERNIDADE:2006.

Tema: Fraternidade e pessoa com deficiência
Lema: “Levanta-te vem para o meio (Mc 3,3)

A CF situa-se no tempo litúrgico da quaresma, os quarenta dias que a Comunidade é convocada para se preparar para a celebração do tríduo pascal: Quinta-feira Santa; Sexta-feira Santa; Vigília Pascal. Temos, então, o que na Teologia se cunhou como “Kerigma”: o anúncio da Paixão-Morte-Ressurreição do Senhor. Segundo Paulo, temos aí a síntese da Boa-Nova, do Evangelho.(Carta aos Gálatas).
Quaresma é tempo de conversão, de volta ao essencial de nossa fé: a práxis de Jesus de Nazaré: sua vida pública, ensinamentos, curas e milagres, sua paixão e morte e ressurreição.
Iniciada em 1962 na arquidiocese de Natal, aos poucos foi se espalhando Brasil afora, posteriormente, encampada pela CNBB.
Os temas, por sua vez, foram se evoluindo: do pessoal, da família, da paróquia para o social.
Ela nos leva a nos debruçar sobre uma problemática social considerado um gargalo, um obstáculo que enfraquece, dificulta ou vem a negar uma convivência social baseada na Justiça, na Ética. Para nós cristãos: na fraternidade.
1. Tensão entre a liturgia quaresmal e pascal e a proposta da Campanha.
Os liturgistas e pastoralistas, por vezes, se desentendem como conciliar as duas propostas: preparação para a Páscoa e o tema da CF. Um não pode ofuscar o outro. A programação intensa e variada da CF deve culminar com a celebração do Tríduo Pascal. Talvez centralizando as duas propostas na proposta central da mensagem do Rabi da Galiléia: o Reino de Deus, o impasse possa ser dirimido.
Afinal, a temática do ano da CF constitui uma convocatória para a superação de uma realidade social que contrapõe ao Reino de Deus que é uma sociedade mais humana e justa para todos, privilegiando os que dela são excluídos.
2. Quem é deficiente?
Como definir uma pessoa portadora de uma deficiência? Segundo o manual da CF-2006, a palavra “deficiência” evoca ausência, anomalia ou insuficiência de um órgão, de uma função fisiológica, intelectual, ou até social...A noção de deficiência é complexa e está associada à idéia de imperfeição, fraqueza, carência, perda de qualidade e quantidade. O termo vem do latim tardio “deficientia” e significa falta, enfraquecimento, abandono. Seu emprego exige cuidado e reflexão....” (Manual CF-2006, no.13, pg.16).
3. Alguns Dados.
Pessoas deficientes mentais, físicas ou sensoriais, no mundo, vão além de 500 milhões de pessoas segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), no Terceiro Mundo, em tempo de paz, as pessoas com deficiência mental correspondem, aproximadamente, a 50% do total das pessoas portadoras de deficiência.
“Na maioria dos países, pelo menos uma em cada dez pessoas tem uma deficiência e a presença dessa deficiência repercute em pelo menos 25% de toda a população. As guerras e a violência produzem cotidianamente milhares de pessoas com deficiência em todo o mundo. Estima-se que, no mínimo, 350 milhões de pessoas com deficiência vivam em zonas que não dispõem dos serviços necessários para ajudá-las a superar suas limitações. Uma grande parcela das pessoas com deficiência está exposta a barreiras físicas, culturais e sociais que constituem obstáculos à sua vida, mesmo quando dispõem de ajuda para sua reabilitação” (Manual CF-2006 VER, pg.19).
4. A práxis de Jesus de Nazaré.
Jesus de Nazaré legitimava sua mensagem com atos e gestos libertadores.
As curas constituem para os infelicitados uma “boa-nova” libertadora. Na Cultura e religiosidade judaica no AT e vigente no tempo de Jesus, toda e qualquer manifestação de deficiência: surdez, mudez, aleijão, febre, distúrbio mental, doenças de pele (tina – tuberculose), era considerada como castigo de Deus por ser a pessoa uma pecadora. A temática sobre o justo-sofredor vinha de longe e foi desmascarada no livro de Jó. Jó não podia aceitar a crença corrente (a doutrina da Teologia da Retribuição: fiz o bem, sou uma pessoa justa, logo Deus tem a obrigação de me recompensar. A prosperidade material é prova da bênção de Deus; o contrário, de sua maldição); uma vez que era uma pessoa inocente, cumpridora da Lei. O livro faz parte do gênero literário sapiencial, escrito pós exílico, no séc.V ª.C.
Jesus retoma esta tradição na pendenga com os Fariseus: a pureza ou impureza é questão de coração, de intencionalidade, de ética, numa palavra.
Além de curar o deficiente, o introduz no convívio social, com direito de freqüentar a sinagoga e visitar o Templo. Ao tocar o cego de nascença (Jó 9,6), ou deixar que o leproso se ajoelhasse diante dele, segundo a Tradição, se tornara impuro como eles eram impuros!
A pobreza, a miséria,a fome como realidades sociais estruturais constituem verdadeiros obstáculos para que tenhamos uma convivência social humana e digna. Fazer penitência, preparar-se para celebrar o mistério pascal é somar forças com todo e qualquer movimento que luta por mais justiça social, onde o valor Vida sobreponha ao mercado, ao lucro, à cotação da moeda e à flutuação das bolsas financeiras.
Frei Cristóvão Pereira ofm.freicristovao@gmail.com