quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Artigo do Frei Cristóvão.

Leia abaixo o último artigo enviado pelo Frei Cristóvão:

A Sociedade Civil Global em Formação

“Se todo poder emana do povo, só o povo consciente e organizado o fará valer”(Frei Cristóvão).

Uma Sociedade Civil global vai-se consolidando.Os Fóruns Sociais Mundiais perfilam o seu rosto.
Se o boi tivesse consciência de sua força, ninguém o prenderia no curral e muito menos poria uma focinheira no seu nariz para domá-lo.
O que vale para o boi pode valer para cada pessoa, para cada povo. É o que chamamos de conscientização. Paulo Freire, nosso mestre e pedagogo, descreveu o fenômeno de alfabetização como ajudar alguém a ser-a-si-mesmo. Fazê-lo ser dono de seu nariz e ser capaz de andar com as próprias pernas.
O “Boa Nova” do Rabi da Galiléia não consistiu nisso? Ao fazer tantas curas, tornava o infeliz, feliz, isto é, o reintegrava ao convívio dos outros com o direito de freqüentar a sinagoga e não depender dos outros pedindo esmola. E
mais do que isso: o libertava do complexo de que fosse um pecador, indigno de pertencer ao Reino do Messias quando esse viesse. De marginalizado, excluído, agora como gente, pessoa era tão importante perante a Deus quanto aos outros.
Não estaria aí a chave do que venha a ser evangelizar?
A Igreja só tem razão de ser enquanto evangeliza; enquanto meio, instrumento, sacramento de um processo libertador de toda e qualquer forma de opressão, injustiça, e a alienação..
O FSM, versão 2006, é policêntrico, realiza-se em três continentes. Janeiro em Bamako, capital do Mali e Caracas, na Venezuela. Em março será em Karachi, no Paquistão.
Já em 2007 volta a sua forma original como evento único. Tudo indica que seja em Nairobi, noQuênia.
Cada fórum, além de visualizar as perspectivas locais, não deixa de conectá-las com os problemas do mundo. (De Sousa Santos, Boaventura, Folha de SP, Tendências/Debates, Opinião: 05/02/2006)
Exemplificando: em Bamako mereceram especial atenção os temas da dívida externa, modelo de desenvolvimento, acesso à terra e à água, luta das mulheres contra as muitas formas de discriminação (violência doméstica, destruição dos mercados locais, HIV/Aids) (idem).
Além desses gargalos globais, somam-se problemas internos de governos nacionais corruptos e autoritários.
O Fórum de Caracas, com a participação de 1000 mil pessoas, em especial da Colômbia, do Brasil e dos EUA, teve a particularidade da participação de organizações e movimentos sociais norte-americanos. Simbolizando a integração das forças progressistas norte-americanas, até então relativamente isoladas, na luta continental por uma sociedade mais justa e pacífica. Já se fala da viabilidade de se organizar um Fórum em território norte-americano.
Hugo Chaves, com o seu entusiasmo revolucionário-bolivariano, num debate interno do FSM manifestou seu apoio aos que pretendem transformar o FS, de espaço aberto, num ato político global mais eficaz ou talvez mesmo numa nova internacional.
Advertido por assessores, consertou as coisas. No seu encontro com representantes dos movimentos populares do mundo inteiro, não se cansou de salientar a autonomia do Fórum.
A relação dos movimentos populares com um governo de esquerda não deixa de ser nova, complexa e em com novos contornos a serem precisados.
O certo é que a Sociedade Civil organizada é a autora, a fonte de todo e qualquer poder. Os contornos de seu perfil global vão desenhando com mais clareza com as realizações dos diversos foros mundo afora
Uma coisa os unifica por dentro, estruturalmente: a luta por uma sociedade mais justa e pacífica.
Eu chamaria isso de Ecumenismo Político!

Frei Cristóvão Pereira ofm.
freicristovao@gmail.com.