sábado, fevereiro 04, 2006

Artigo do Frei Cristóvão. Fórum Social

Leia abaixo o último artigo enviado pelo frei Cristóvão sobre o Fórum Social Mundial, realizado em Caracas e do qual participou.

ECOS DO VI FÓRUM SOCIAL MUNDIAL - CARACAS -23-30/01/2006 (II)
Capítulo: Fórum das Américas
“Vamos sonhar juntos, sonharem mutirão” (Zé Vicente).

Na primeira parte deste trabalho analisamos o Fórum como um Pentecostes Político(1); em seguida, como um real instrumento para se chegar à Integração das Américas (2); e qual foi o marco inovador que o Fórum de Caracas apresentou (3).
Veremos nesta segunda parte seus eixos centrais (I); a participação do Povo e do Governo venezuelanos, do Governo Brasileiro(II); a participação dos Franciscanos e da Igreja Católica neste evento (III).
I. Os Eixos Transversais e os Eixos Centrais.
Gênero e Diversidade foram os eixos transversais adotados em 2002 como marco de reconhecimento do Fórum como processo.
Após ampla consulta, foram recebidos, aproximadamente, 600 propostas de organizações, entidades e pessoas de todos os Continentes, especialmente, do Continente Americano, formou-se o desenho dos eixos que organizaram a convocatória, as inscrições e a programação do Fórum (Programação FSM, Caracas, pg.10).
São eles:
1.Comunicação, culturas e educação: dinâmicas e alternativas
2.Diversidades, identidades e cosmovisões em movimento
3. Estratégias imperialistas e resistências do povo
4.Poder, política e lutas pela emancipação social
5. Recursos e direitos para a vida: alternativas ao modelo civilizatório depredador
6. Trabalho, exploração e reprodução da vida.
II. Participação do Governo Venezuelano e Brasileiro
Governo Venezuelano
Total e além das expectativas.O povo venezuelano é alegre, jovial e carinhoso. Nas avenidas, nas praças, nas ruas, no Metro, nas “carreteras”, nos alojamentos e centros de Encontros éramos considerados parceiros e solidários do processo revolucionário-político por ele vivido e em fase de consolidação.
As Brigadas de Acolhida, de Saúde, de Transporte, de Segurança, de Alimentação, Voluntários nos recebiam e nos acolhiam com muita atenção e com certo orgulho por ser o seu país a sede do Fórum.
O Governo Hugo Chaves soube aproveitar com habilidade e estratégia um evento de tal envergadura e de repercussão mundial.
O centro de Caracas, a Universidade Boliviana de Caracas, o luxuoso Hotel Caracas Hilton, com seu majestoso anfiteatro (“Gran Salón”), o Liceo Andrés Bello, o Colégio Universitário de Caracas ficaram à disposição para as mais variados e diversificados eventos. Na avenida central tendas e mais tendas (“Carpas”), expunham as realizações do Governo Revolucionário com o lema: “Agora é a hora de todos” Grupos musicais se revezavam nos diversos palcos ao longo da avenida central e o povo se bailando de corpo e alma.
Governo Brasileiro
Cioso para não perder seu espaço junto ao Fórum, armou, bem no centro da capital Caracas, na entrada da avenida Venezuela, sua luxuosa e confortável tenda, de estrutura metálica, sob o patrocínio da Petrobrás, com farto e rico material publicitário; além de cabines com Internet para a Imprensa.
O Governo Brasileiro se fez representar através das pessoas de Luiz Dulci, da chefia de gabinete da presidência da República, do ex-ministro José Dirceu e Tilden Santiago, embaixador em Cuba.
Participantes de outros países da AL por lá passavam e se refestelavam com o abundante material publicitário.
III. Participação Franciscana e da Igreja Católica
Os Franciscanos
A SINFRAJUPE realizou, na semana que antecedeu ao Fórum uma semana de reflexão sobre a temática: “Solidariedade e Franciscanismo”, no intuito de motivar a Família Franciscana Latino-Americana para participar do Fórum. Muitos confrades, religiosas e leigos da OFS ficaram para o Fórum.
Hospedei-me na casa central da Custódia, situada no bairro “Cristo Rye”, periferia de Caracas. Nela residem os estudantes de Filosofia. Na verdade, não senti lá, entre eles, muito entusiasmo quanto ao Fórum em si.
Uma certa frieza, para não dizer reserva não só quanto ao Fórum como também ao Governo Chaves. Não vi nenhum dos estudantes participar de qualquer evento do Fórum. Preferiram, alguns deles, seguir pela TV a “Gran Filane” do campeonato nacional de beisbol. Não sei que tipo de franciscanismo passam para as novas gerações. Um franciscanismo bem eqüidistante dos leprosos de hoje! Me parece que o nascedouro de novas gerações vem desse chão!
Na missa dominical, na parte da manhã, nenhuma referência ao Fórum!

Igreja Católica
A participação da Igreja Católica do Brasil se deu através do CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, da qual a CNBB é integrante); da Cáritas (CNBB); do grito dos excluídos (oriundo das Semanas Sociais Brasileiras – CNBB), já em dimensão latino-americana.
Na semana anterior ao Fórum realizou-se, com ampla divulgação da Imprensa, um encontro oficial entre a Hierarquia Católica (presidência da Conferência Nacional dos bispos venezuelanos), com a presidência da República.
Em quanto me consta, a pedido dos bispos e a propósito de certos comentários desairosos feitos pela TV oficial do Governo referentes à postura da Hierarquia à política econômica oficial e ao combate à pobreza.
Cumpre observar que a maioria do povo católico venezuelano, gente na sua grande maioria pobre e excluída, vivendo nas imensas favelas que circundam o centro de Caracas e que sobrevive da Economia Informal que invade as ruas e avenidas da cidade, apóia o governo Hugo Chaves e o processo revolucionário bolivariano em curso.
Para tanto não precisou consultar à Hierarquia se deveria fazê-lo ou não. A situação geral de pobreza o legitimou e o legitima para tal”.
Os bispos reivindicaram junto ao Governo uma autonomia crítica e uma política econômica mais eficaz de combate à pobreza.
Resta saber se, no passado, a postura pastoral da Igreja, contribuiu ou não para superar estruturas sociais tão gritantes e desiguais”
A situação torna-se mais delicada e crítica para as igrejas neo-pentecostais de origem americana. O anti-americanismo, no coração da maioria do povo pobre de Venezuela, salta aos olhos e com muita razão de ser.
Não deixa de ser significativo a escolha de D. Thomas Balduino, na ocasião substituído por D. Marcelo de Barros, pelo Conselho Internacional do FSM, para ser orador no grande encontro do presidente Hugo Chaves com os Movimentos Populares do Mundo. D. Marcelo foi apresentado como representante da Teologia da Libertação, malgrado seus desafetos! Foram os dois únicos da noite.

O Fórum Social é uma festa cívico-política. Além das conferências, oficinas, seminários, discussões e entrevistas na TV, celebra-se a alegria de se encontrar, de estar junto, partilhar o mesmo sonho, a mesma utopia de que o novo mundo não é só possível, torna-se necessário.
É a festa, a celebração da Esperança e sem esperança a vida fica sem sentido, sem gosto de se viver.
E para nós cristãos, o fundamento de nossa esperança está no Cristo-Ressuscitado, vivo e atuante em nossas Comunidades que procuram viver na fidelidade à mensagem de vida que nos deixou.
Mas, não só em nós, também em “todo Homem de boa-vontade”(Mt 2,14).
Frei Cristóvão Pereira ofm.