quarta-feira, outubro 05, 2005

Texto do Frei Cristóvão: Corruptio boni péssima.

Leia abaixo o último texto enviado pelo Frei Cristóvão:

Corruptio Boni Péssima.

(“A corrupção do que é bom, é a pior de todas as coisas”)

O vendaval de corrupção parece não ter fim. Especialistas no assunto afirmam que o que se apurou até então é apenas o iceberg de todo um arquipélogo!
Tenho alguns amigos que asseveram com convicção que o “Homo” é mau, corrupto congenitamente, por natureza.
Disso surge um problema teológico que perdura através dos tempos. Paulo, Boécio, Agostinho, entre tantos, esquentaram a cabeça com a problemática.
Tudo está conectado, tradicionalmente, com o que se convencionou chamar de “Peccatum Originale”. De uma forma ou de outra nossos ancestrais romperam com o seu Criador. Tiveram a pretensão de se igualar, senão, superar quem o criara com amor, dotado de razão e liberdade. Correu este risco, com consciência do que fazia, movido pelo amor e gratuidade, deixando em aberto para o “Homo” a possibilidade de fidelidade ou não aos seus desígnios.
Para a espiritualidade franciscana (Duns Scottus), sobremaneira, esta ruptura lhe causou distúrbios, desequilíbrio existencial, mas não tirou suas qualidades de um ser racional e livre. Ele é bom, honesto, solidário, pacífico, segundo sua idade.
O processo educacional consiste, precisamente, em tornar realidade o que nele é potencialidade. O “Homo” é um devir, um vir-a-ser permanente.
Transpondo para os nossos dias, para o momento de crise ético-política que vivemos e sofremos, podemos tirar algumas ilações, as quais ajudam aclarar a situação.
A corrupção do PT via traição de seu projeto primevo, nos deixa perplexos, indignados, frustrados, enfim.
Relembrando o passado, nossa geração anterior a 64, já defendia um Brasil mais nosso, com um projeto próprio para solidificar nossa identidade. A “elite” de então (elite financeira), avara, gananciosa, individualista, apatriota, como sempre, preferiu salvar seus interesses do que pensar no povo, na maioria dos brasileiros.
Uma elite cínica porque permanece silenciosa, e mesmo indiferente, aos sofrimentos de milhões , seus compatriotas. É uma elite que vibra com o Brasil quando vê seus filhos desfilarem garbosos e robustos pelas avenidas de suas cidades no dia da Pátria. Ou, então, quando a seleção canarinha, estufando a camisa verde-amarela, ergue a taça de campeã do mundo!
Batíamos pelas Reformas de Base e pela reforma estruturante, condicionadora de todas as outras, a Reforma Agrária.
Sofremos e penamos, cada um a sua maneira e circunstâncias. Muitos perderam suas vidas por defenderem que “um outro Brasil era possível e até necessário, como brandimos e gritamos em nossos Fóruns Sociais.
Muitos foram presos, torturados, mortos; outros “desaparecidos”. De muitos foram cassados seus direitos políticos, perderam seus mandatos populares ou foram afastados de suas funções acadêmicas ou judicantes (Carlos Dias, O discurso petista de Marilene Chauí, Opinião, Folha de SP, 19/09/20005: A 3).
O PT teve as suas raízes lá atrás conosco, com os Movimentos Sociais e intelectuais de esquerda da década de 1950-1960. Vieram as CEBs, o Movimento Sindical combativo, e, posteriormente, os Movimentos Populares, alimentados pelas Pastorais Sociais.
Eis o nascedouro do PT. A Esquerda cristã apostou no PT e em Lula como referencial e mediação político-legal no sentido de dar um cunho constitucional ao processo. Mas, acima de tudo, investimos, apostamos num projeto maior.
Muita gente, os mais conscientizados (a Classe Média – profissionais liberais, parte do clero, ligados e comprometidos com os pobres, os excluídos; afinados com o Vaticano II e com a Teologia da Libertação, o povão em geral, queríamos mudanças.)
Dentro de um regime presidencialista como o nosso, respaldado pela Carta Magna, torna-se inviável governar o Brasil sem sujar as mãos! O presidente tem poderes de um faraó!
Além da vitória nas urnas, é mister garantir maioria no Congresso, quase impossível alcançar via eleição. Daí as coligações, as mais paradoxais possíveis, porque, ideologicamente, se excluem.
Para conquistar o Poder, o Estado e nele se perdurar vale tudo. Os fins justificam os meios descaradamente.
Quem as defende se justifica afirmando de que são coligações pragmáticas e não ideológicas. Só que na hora da divisão do botim (o Poder, o Estado), os cortes afetam o núcleo ideológico em termos de estratégia e tática. Tenho um amigo, mordido com o PT no Poder que define o “núcleo duro” do governo-Lula como “República-Sindicalista Soviética”! Bem nos moldes stanilistas, com a metodologia governista conhecida por “Centralismo Democrático”. Aliás, bem a gosto de parte do clero, da Cúria Romana e do pontificado de João Paulo II!
Para governar o Brasil, o cara deve ser um santo (Ética), caso contrário, se corrompe fácil. fácil. na perversidade intrínseca do sistema capitalista, no qual o deus maior (Marduk), é o mercado que se tornou um ídolo sedento do sangue dos excluídos.
A Reforma Política pode ser um meio para diminuir o espaço dos que se profissionalizaram na “arte” de extorquir o erário público, vale dizer, em explorar o povo.
Frei Cristóvão Pereira ofm.

Um comentário:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir