terça-feira, setembro 06, 2005

Texto do Frei Cristóvão: As falsas elites

O DESGASTE SEMÂNTICO: AS FALSAS ELITES

“Nem tudo que brilha é ouro”.
Na lingüística é conhecido o fenômeno de como certas palavras se desgastam, perdem sua força original, e por vezes, caem no olvido. Depois, muda-se o entorno cultural, elas voltam à tona, com todo o seu vigor e verve originais.
Veja, por exemplo, a palavra ”caridade”. Se tomarmos o seu sentido bíblico original, teríamos nela como que o núcleo duro da mensagem do Rabi da Galiléia. Veja a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29s), tomada por Jesus para responder a pergunta capciosa de seu interlocutor. Cabe ressaltar que para o judeus o samaritano nunca poderia ser bom no sentido de quem agiria em nome do verdadeiro Deus que os judeus admitiam só eles adoravam. Era inconcebível a um judeu pensar que um samaritano pudesse ser bom!
É conhecido e notável o hino à caridade que Paulo inseriu na sua I Carta aos Coríntios, já recitada na Liturgia da Comunidade(I Cor 13).
“Caridade” veio a significar “assistencialismo”, ganhando uma conotação pejorativa, enquanto, em última análise, vem a ser uma esmola que humilha quem a recebe e, no mais, a gente, em geral, ao praticar caridade dá algo de que não me faz falta, está sobrando lá em casa!
Fala-se, então, em solidariedade, ser solidário com o outro em sua causa que é a busca de sua libertação, independência, conquista de sua dignidade enquanto pessoa, cidadão. As experiências de uma Economia Solidária vão se multiplicando país afora. Veja agora o que se deu com a palavra: elite.
Originariamente, em termos políticos, tal como a encontramos nos escritos platônicos (A República). Platão, no seu idealismo, ele que fora assessor político, imaginava que a “Polis”, o Estado, para dar certo, ser feliz e viver em paz, devia ser administrado pelos “aristoi”, por uma elite, os “melhores”, os sábios. Homens justos e honestos isentos de toda paixão, cobiça e vaidade. .
Veja, então, o que veio a ser e constituir a elite entre nós, no mundo ocidental, capitalista, liberal, neoliberal, agora globalizado!
Temos a “elite do dinheiro” que a tudo domina e põe a seu serviço. É o assim chamado “Comando Delta”, em âmbito local, regional, nacional, mundial.
É a elite do ter e não a elite do ser! Conservadora e reacionária. Avessa a toda e qualquer perspectiva de mudança. E quando essa se torna inevitável, apela, torna-se violenta, repressora. Usa de mil e um artifícios para blindar qualquer alteração da ordem por ela imposta, que, na verdade constitui verdadeira desordem para a maioria, o povão em geral.
Caso isso se torna impossível, convoca-se o delegado, põe a polícia na rua. E se a situação tornar-se insustentável, uma vez que a Lei, a Constituição, o Estado de Direito, a ordem democrática estão ameaçados, convoca-se o Exército. E, em último caso, apela-se para a potência mundial que se arvora guardiã dos valores democráticos e cristãos, vale dizer, o direito de propriedade, a liberdade do mercado e a livre concorrência.
A disputa pelo poder no interno do Estado passa ser vital para que a pseudo-elite se conserve como elite, que, em última análise, constitui uma antielite. Outros preferem falar em oligarquia; ou então, em plutocracia.
A crise política que vivemos há mais de três meses, não passa de uma luta de poder contra poder. Tanto dentro do Partido Majoritário como no Congresso, tendo em vista as próximas eleições presidenciais-2006.
A elite econômica se arma para a reconquista do Estado e se encastela contra toda e qualquer pretensão de um avanço perigoso de um Projeto Popular que venha beneficiar a todos.Frei Cristóvão Pereira ofm

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