terça-feira, setembro 13, 2005

Mozart Vianna - Câmara dos Deputados





Foi publicada na edição de domingo, 10 de setembro, uma reportagem de página inteira, do jornalista Ivan Carvalho Finotti, no caderno Aliás do Estado de São Paulo com o nosso amigo Mozart Vianna de Paiva.
Veja abaixo a reportagem enviada pelo Dante (Elefante).
No mesmo jornal já saiu, há um bom tempo, uma outra reportagem com o nosso amigo Mozart.
É uma pena que o seu serviço na Câmara dos Deputados nunca permitiu que ele comparecesse aos nossos encontros em Santos Dumont. Ele já foi "intimado" várias vezes e um dia ele aparece.

A 1ª foto é dos tempos de seminário, em Santos Dumont. O Mozart é o 1º da 1ª fila, da esquerda para a direita.
A 2ª foto é de Protásio Nene e a 3ª é de Dida Sampaio, ambas da Agência Estado..

Domingo, 11 de Setembro de 2005

A cadeira do homem da mesa

O secretário-geral da Câmara gosta muito de Severino: foi ele quem lhe deu assento após 14 anos em pé

Ivan Carvalho Finotti

Será que Mozart vai perder sua cadeira na Câmara dos Deputados? Não, não adianta procurar na lista dos 18 cassáveis, porque Mozart não está lá. Mozart não é deputado. Mozart Vianna de Paiva, 54, é o secretário-geral da Mesa Diretora da Câmara, o principal assessor dos presidentes da Casa, cargo ocupado por Severino Cavalcanti no início deste ano. Mozart está lá, exercendo o papel de anjo da guarda dos deputados-presidentes, desde março de 1991, quando o antigo titular se aposentou e ele foi promovido pelo então presidente Ibsen Pinheiro.

Mozart sabe tudo sobre as leis do Congresso. Sabe tudo sobre as filigranas jurídicas do plenário. Sabe tudo sobre os ritos que regulam a Câmara. Essa votação é em um ou dois turnos? "Um turno com maioria absoluta", esclarece Mozart. Essa medida provisória que entrou agora vai trancar a pauta? "Só após a publicação no Diário Oficial", destrincha. Quem assume se o presidente da Câmara cair? "Se for licença, o vice", deslinda. E se for cassação? "Renúncia ou cassação abrem vacância. Nesse caso, uma nova eleição tem de ser convocada em cinco sessões", destrama.

Mozart é o cara para perguntar sobre essas coisas de regimentos políticos. Os jornalistas de Brasília adoram Mozart e todo mundo lá tem seus telefones; o do gabinete, o do celular, o de casa. Ele até tem uma cara de bravo, mas é uma impressão que passa à primeira frase. Um repórter conta que já ligou à meia-noite para a casa dele para tirar uma dúvida urgente. Foi atendido com a mesma gentileza das 14 horas. Suas secretárias anotam todos os telefonemas que recebe, com hora e minutos. Mozart retorna a todos, sem exceção, mesmo que seja dias depois, devido ao grande acúmulo de trabalho. Nem quando os jornalistas chamam o Mozart de Môzart (o correto é falar com acento no 'a'), ele se chateia. Talvez porque seu sonho era fazer jornalismo.

Ele até começou a cursar, mas largou quando foi aprovado no concurso de datilógrafo para a Câmara, em 1975. Como secretário-geral da Mesa há 15 anos, trabalha sempre para o presidente da Casa, mas sua imparcialidade está acima dos cargos e partidos. "Eu não faço política, faço trabalho técnico. Quem faz política aqui são os parlamentares. Eu sempre separo muito bem isso. Não sei fazer política e não cabe a mim fazer política. O importante é dar assessoramento correto, dentro das normas, e isso não está subordinado a sentimento de simpatia ou antipatia. O trabalho tem de ser imparcial. O que não quer dizer que a gente não goste do presidente."

É claro que Mozart gosta do atual presidente, como gostou de todos os outros sete que assessorou, mas esse é especial. Afinal, foi Severino Cavalcanti quem eliminou uma injustiça, por assim dizer, histórica. Depois de servir aos presidentes durante todas as sessões do plenário nos últimos 14 anos, Mozart ganhou uma cadeira no início de 2005. Isso mesmo: desde 1991 Mozart acompanhava às sessões tão em pé quanto este ponto de exclamação! Assessorou o impeachment de Collor em pé! Assessorou a CPI do Orçamento, que defenestrou seis deputados sem contar os quatro que renunciaram, em pé! Assessorou a votação da vitória de Severino, que durou 17 horas, em pé! E, na primeira sessão em que o deputado pernambucano se sentou na cadeira de presidente, virou para a esquerda, olhou para cima e disse: "Não sei como você agüenta ficar em pé nesse tumulto todo". Mozart sorriu e desconversou. Não falou sobre as dores na coluna. Não falou que estava freqüentando médicos por isso. Mas um mês depois ganhou sua cadeira.

"O presidente foi muito generoso. Aliás, foi a senhora dele, uma senhora muito distinta, a dona Amélia, que comentou: 'Ô, Severino, aquele rapaz que fica em pé lá com você o tempo todo...' Eu não me acostumei até hoje. Acho que a mesa é dos parlamentares. Depois de 14 anos em pé ali, ainda estranho ficar sentado. Por isso fiz questão de que fosse uma cadeira simples, supersimples, diferente da dos parlamentares. A deles é alta, de espaldar. A minha também é de couro, mas é pequenininha. Sou mero ajudante."

PELA ORDEM

O presente foi um acontecimento na Câmara, com direito a manifestações oficiais, como a do bispo Carlos Rodrigues, do PL do Rio:

- Senhor presidente, peço a palavra, pela ordem.

- Tem Vossa Excelência a palavra - respondeu Severino.

- Senhor presidente, deputado Severino Cavalcanti, parabenizo Vossa Excelência pela decisão sábia e bondosa de deixar esse abnegado trabalhador à sua esquerda, o senhor Mozart Vianna, que há 20 anos trabalha em pé nesta Casa assessorando todos os presidentes, trabalhar sentado. Parabéns, senhor presidente. A atitude de Vossa Excelência demonstra que é um homem de coração justo e bom. Senhor Mozart Vianna: quem ficou 20 anos esperando merece ficar sentado por mais 20. Parabéns.

"Não vejo motivo para tanto, não", diz um constrangido Mozart ao se lembrar do ocorrido. Modéstia, aliás, é algo que não falta a Mozart Vianna. Ele, por exemplo, terá ficado duplamente constrangido ao ler os parágrafos acima e se ver como personagem principal de uma reportagem ("Não sou ninguém para ficar aparecendo em jornal, não."). E, talvez, até bravo ao ler que ele é o cara que sabe tudo sobre a Câmara. Porque Mozart sempre faz questão de, ao dar qualquer informação, dizer que se trata de trabalho conjunto dele e de sua equipe.

Ele também não quer ser mal compreendido. Durante toda esta semana, foi destacado por jornalistas e deputados para discorrer sobre os possíveis cenários da crise. Falou sobre as possibilidades e conseqüências jurídicas de um pedido de licença, renúncia ou cassação. Mas a todos os interlocutores ressaltava: "Não há nada provado, nada de concreto, estou respondendo o que você me perguntou: a tese, o cenário jurídico. Porque o presidente falou lá em Nova York que não existe nada, que ele tem como comprovar etc. e tal. Ressalvado isso, você me pergunta quais são os cenários..."

E depois de falar sobre os tais cenários, só para o caso de alguém não ter entendido, completava: "Agora, sempre ressalvando que não há provas e que o presidente disse que vai esclarecer tudo..." E, em seguida, o secretário dividia o mérito: "Esse trabalho de análise jurídica não é meu. A gerência toda foi do gabinete da presidência. A secretaria da Mesa só entrou na medida em que foi consultada na parte regimental".

SEMINARISTA

Nascido em Corinto, Minas Gerais, e torcedor do Atlético Mineiro (ele tem uma bandeirinha do Galo no gabinete), Mozart foi seminarista franciscano em São João del Rey dos 10 aos 18 anos. Mas o seminário pegou fogo e Mozart se viu em busca de emprego na capital mineira. Um irmão o chamou a Brasília e, após alguns bicos, entrou na Câmara dos Deputados com 23 anos, no tal concurso de datilógrafo. Largou o Jornalismo e acabou se formando tempos depois em Letras no Centro Universitário de Brasília. Seu nome, conta ele, não tem nada a ver com o célebre compositor vienense. "Meu pai, que era muito simples, tinha um conhecido com esse nome. Foi apenas uma homenagem a esse amigo."

Como testemunha privilegiada da história política brasileira, vendo por sobre os ombros importantes, Mozart viveu diversos momentos inesquecíveis. O primeiro que ele cita, no segundo semestre de 1992, foi o do impeachment. "Porque nunca havia tido impeachment e a lei era de 1950. E já havia uma nova Constituição, de 1988. A pergunta era: como a lei é de 1950, ela ficou caduca com a nova Constituição? Havia outras dúvidas cruciais. Seria em dois turnos? Votação secreta? Analisamos todo o processo com o presidente Ibsen Pinheiro, que é procurador e tem sólida formação jurídica. Ali foi definido o rito. Detalhes importantes, como o fato de que foi definido um turno só e votação aberta. E eu tinha acabado de entrar como titular."

"Outro momento muito importante - e difícil - foi o da CPI do Orçamento, também de muita tensão, como hoje, porque parlamentares estavam sujeitos ao julgamento da Casa. Tudo isso mexe muito com a gente. São pessoas que a gente conhece, acaba gostando delas."

O fato que mais o emocionou, entretanto, aconteceu fora da Câmara. "Foi a morte de Luís Eduardo Magalhães. Eu era muito próximo dele, nos demos muito bem e além de presidente eu o considerava meu amigo pessoal." Magalhães morreu de enfarte em 1998, um ano depois de deixar a presidência da Câmara dos Deputados. É o único dos presidentes com quem trabalhou que ganhou uma homenagem de Mozart: um quadro em seu gabinete.

E agora? Com essa confusão toda, será que Mozart corre o risco de perder sua cadeira ou ele pode reclamar sua posse por usucapião? "A cadeira... Acho que continua... Os deputados, alguns dizem que foi bom...", balbucia, cheio de cuidados para não desagradar a ninguém. Mas a verdade é que, sem ela, ficaria difícil. "Não é só o fato de ficar horas em pé. É o movimento de se abaixar e remexer nos papéis o tempo todo." Para diminuir as dores na região lombar, por exemplo, chegou a substituir os cintos, que lhe apertavam a coluna, por suspensórios coloridos. De quebra, ficou mais chique. Mas o pior é que Mozart é igual a quase todo mundo: no semestre passado, a pedido do médico, se matriculou na academia para fazer hidroginástica. Foi duas vezes e nunca mais...

HISTÓRIA

"No impeachment, decidimos todo o rito: votação em um turno, aberta, com maioria de 2/3"

"Fiz questão de uma cadeira simples. A deles tem espaldar. Sou só um ajudante"

2 comentários:

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