segunda-feira, agosto 22, 2005

Artigo do Frei Cristóvão:

Um Juiz Direito, Direito – Um Delegado, Honesto – e um Pároco “Porreta”!

De como consertar uma cidade, usando os meios normais.

A propósito da crise ético-moral-política que vive o país, e que se vai prolongando mais do que devia, lembrei de algumas experiências pastorais que vivi durante quase cinqüenta anos de ministério.
A primeira foi em Novo Cruz, norte de Minas, diocese de Araçuaí. A cidade não era comarca, portanto sem Juiz de Direito; muito menos tinha delegado, e sim um sargento que comandava o destacamento policial local. Sargento João. Gente boa, porém, enérgico. Era meu aluno no Colégio Estadual da cidade e companheiro de futebol; jogava com a gente no time dos estudantes .
A segunda, em Nanuque. Essa com mais intensidade e maior risco de minha própria vida, envolvendo gente “importante”, madames e caterva da “elite” financeira e latifundiária, cabos eleitorais etc. (Fui ameaçado por duas vezes de morte; gente amiga, a turma do futebol da madrugada, me protegeu!!)
Em Nanuque o caldo engrossou porque a notícia vazou por ingenuidade de mocinhas-pedicuri e para abafar o caso estabeleceu-se uma operação-limpeza-de-arquivo, sendo que uma delas foi assassinada; a outra ameaçada, em plena tarde, numa família onde trabalhava. E isso no coração da cidade.
Nossos freis trabalharam por muitos anos em Nanuque. Lá construíram as duas igrejas-matriz, Imaculada Conceição e S. José. Com muita luta e esforço pessoal construíram o Colégio Sto. Antônio, onde muitos deles lecionaram e do qual fui diretor.
Mais tarde foi criada a paróquia S. José, aproveitando a divisão natural da cidade pela ponte sobre o rio Mucuri.
Naqueles tempos falar em Pastoral de Conjunto ainda era novidade. De sorte que as duas paróquias caminhavam cada uma para o seu lado! Somente na festa de Corpus Christi é que os srs. Párocos se comunicavam pastoralmente!
A procissão saia de cada matriz e se encontrava no meio da ponte, e, então, segundo a alternância do ano, um pároco passava o ostensório para o outro pároco, finalizando a comemoração na respectiva matriz!!. “Oh tempora, oh mores!
Veio o Vaticano II e na fase preparatória tornou-se comum discutir a necessidade de se implantar uma Pastoral de Conjunto para atender aos sinais dos tempos e aos condicionamentos do processo de industrialização-urbanização-êxodo rural e concentração fundiária.
Com o Capítulo Provincial de 1988 e convicto de que mais no meio do povo estaria mais motivado para viver a vocação e o carisma francisclariano, apresentei um projeto ao novo governo provincial para unificar as duas paróquias e começar uma caminhada pastoral inspirada nas orientações das conclusões do Vaticano II e sua inculturação à realidade latino-americana via Medellín (1968) e Puebla (1979).
Dois confrades holandeses toparam começar a nova experiência comigo naquela cidade.
Lembro-me como se fosse hoje: peguei meus bagulhos (roupa e livros), enchi o fusca 1.6, de Betim rumei direto a Nanuque. Cheguei, na cidade, pela tardinha, antes da missa das 19h. Atravessei a cidade rumo ao bairro Vila Nova e no topo do morro, contornei a avenida na direção esquerda que dá acesso, novamente ao centro da cidade. Parei o carro, dele saí e contemplei a cidade: a avenida Santos Dumont, a Igreja S. José, o Colégio Santo Antônio, a Pedra Negra que, imponente enfeita e domina a cidade, a Igreja N. Sra. da Conceição, a prefeitura, os galpões abandonados da Holambra, o fórum, a rodoviária, o Clube Pedra Negra, o prédio onde funcionou o Colégio “Stela”, construído pelas irmãs........, a rodovia que liga Teófilo Otoni à rodovia 101, o campo de aviação, a nova ponte que divide a cidade e, por fim, o rio Mucuri. O rio Mucuri e a gigantesca pedra, frontal a uma parte da cidade, dão o toque geográfico-ecológico a Nanuque.
E, então, me uni profundamente a Deus rogando sua proteção e bênçãos ao nosso projeto, como que pressentindo que a tarefa seria árdua e dantesca. Fechei o pedido: “Seja o que Deus quiser, se estou aqui é porque sinto por Ele chamado e estarei a seu serviço, a serviço do seu Reino.
Toquei para a casa paroquial da igreja da Imaculada, onde frei Luiz Aguiar, meu conterrâneo lá de Pará de Minas, me esperava no portão da casa. Naquele dia celebrei a missa das 19h, com pouca gente assistindo e já comecei minha falação! Como padre novo tomei como princípio de que em toda e qualquer eucaristia que celebrasse, faria um pequeno comentário das leituras ou festa do dia. Três minutos, no máximo cinco.
A epopéia de Nanuque daria para escrever um livro. Frei Oscar, D.Hugo, frei João José van der Slot, os confrades falecidos Simão, Peregrino e Jerônimo são e foram testemunhas de tudo.
Relato tudo isso a troco de quê?
Nas paróquias que estive mais à frente tinha como estratégia conhecer bem o sr. Juiz de Direito e manter bons relacionamentos com o sr. Delegado.
O primeiro juiz direito, no início de nossa caminhada em Nanuque, não era flor que se cheirasse. Um pelegão. Chegou a prejudicar-me no processo que respondi, impetrado pela UDR, recentemente criada na região com sede em Nanuque. Tentei mantê-lo sob controle! O promotor era o sr. Nedens Ulisses Freire Vieira. Mantivemos bons contatos. Dele colhi preciosas orientações de como agir em muitas ocasiões. O delegado era um ex-aluno meu da Faculdade de Direito de Divinópolis (FADOM). Visitava, constantemente, a delegacia; era recebido no seu gabinete e recomendava que não queria saber de arbitrariedades, torturas com os meus irmãos presos! Tinha alguém do Movimento Estudantil que trabalhava na delegacia e me punha a par das ocorrências. O pároco “porreta” seríamos nós os três freis, recém-chegados!
Nos “imbróglios” que espocaram mais para frente, mantive a estratégia de sempre ser a cabeça dos acontecimentos, resguardando os meus confrades holandeses de possíveis retaliações.
As irregularidades na Prefeitura e durante as eleições eram denunciadas no altar; a onda de violência referida acima por causa da droga; as pedreiras que funcionavam irregularmente no perímetro urbano, com o transporte clandestino de cargas de dinamite, nos ônibus da Gontijo (Nanuque chegou a ficar 45 dias sem brita e as denúncias e apurações foram investigadas pelas forças armadas); o respeito ao horário do silêncio etc, etc. foram paulatinamente debeladas.
O meu colega de turma, Camilo Prates, o primeiro juiz de direito no período de nossa permanência em Nanuque que o diga! À frente da Comarca foi um Juiz de Direito, muito direito. Posteriormente, Arutana, como juiz, desenvolveu esplêndido trabalho no sentido de moralizar as campanhas eleitorais, e como Juiz de Direito da Comarca, amansou muitos latifundiários que tinham e ainda têm o vício de confundir o seu latifúndio com a cidade onde residi!
Mais recentemente, já em 2002, encabecei todo o processo de cassação do sr. prefeito, gestão 2002-2004. Só depois que o Tribunal de Justiça decretou o afastamento do prefeito e se iniciou o processo de sua cassação é que a “elite” política (Rotary –Lions, Lojas Maçônicas, Associação Comercial, Sindicato dos Produtores Rurais, OAB, Federação das Associações de Bairros) mesclada com o “Comando Delta”, aderiu ao movimento. Uma vez concretizada a operação-cassação abocanharam do Poder local, sem o menor reconhecimento do nosso trabalho. Em todo caso a cidade voltou à sua normalidade, e o ex vice-prefeito começou a consertar a “máquina, avariada pelos desatinos do período da administração anterior”.
O então prefeito cassado tinha seus jagunços (5) que o protegiam. No processo de “impeachement” para garantir a votação favorável, um grupo de pessoas cotizou, na base de 15 mil reais, o voto de três vereadores. E todo mundo na cidade sabia, quem movimentou a operação, e quais os vereadores, venais, que venderam seu voto; vale dizer sua consciência. O advogado de defesa tentara subornar o então presidente da Câmara na razão de 50 mil reais!. A prática do “Mensalão” vem de longe!!.
Creio que em nossa Província, principalmente nas paróquias do interior está carecendo de um Juiz de Direito, direito; de um Delegado, honesto; e de um Pároco “Porreta”!
Se não conserta tudo dá para ajeitar muita coisa!
Frei Cristóvão Pereira ofm.

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