sábado, agosto 06, 2005

Artigo do Frei Cristóvão:

CEBS E O “MENSALÃO

As Comunidades eclesiais de base constituem celeiros donde brotam as lideranças, os agentes sociais na Igreja e na Sociedade.

O quê é uma CEBs?

É um modo de ser da Igreja. Assemelham-se muito com as comunidades cristãs, criadas já na metade do primeiro século, e que hoje se espalham mundo afora.
Embora sejam tipicamente rurais e de conotação própria de nosso povo dos morros, das favelas das cidades de médio e grande porte. Nas grandes cidades, nos grandes centros urbanos já se destacam os variados grupos de cristão que se reúnem para momentos de estudo sobre a Bíblia e fazer uma análise de conjuntura, aprofundar a fé e renovar seus compromissos com o mundo e sua transformação num mundo mais humano, solidário e fraterno.Nela se celebra uma liturgia inculturada, comprometida com Deus da Vida, o Deus do rabi da Galiléia.
Daí que para as CEBs Política e Fé se implicam e se imbricam. Sua fundamentação teológico-biblíca brota da Teologia da Libertação, malgrado a resistência do “baixo e alto clero; como também de cristãos tradicionais e fundamentalistas! Onde houver injustiça, exploração do pobre, do “menor”, aí a expressão de fé só pode ser a partir de uma fé libertadora. É a passagem de um “aleluia de louvação” para um "aleluia libertário"!

“Mensalão

Um amigo meu, com um salário mequetrefe brincava comigo: “Com o salário que recebo, ficaria contento de ser um “mensalista”, já que para ser “mensalão”, tem que crédito na praça, um mínimo de bens e de capital!
A origem do “mensalão”, da corrupção deve ser buscada lá atrás, já na corte de Portugal: o regime político cunhado pelo nome de Patrimonialismo, que consiste em confundir, identificar o público com o privado, fazer do cargo público um bico para se locupletar. É lançar mão sobre o erário em benefício de si mesmo e de seus apaniguados!
Da Corte de Portugal esse vírus político foi inoculado nas veias de todos que se aportaram. E cá chegaram para pilhar, saquear, roubar as riquezas de nossas gentes e de nossas terras. Basta relembrar a criação das Sesmarias. O latifúndio vem daí, como a mentalidade de seus administradores, “caciques” e “coronéis”, donos de tudo e faziam a justiça segundo seus interesses e seus humores! Fomos viciados a ser “espertos”, levar vantagens em tudo, enriquecer-se não importa os meios e não importa que esteja lesando o povo inteiro, o país, a nação.
Ora a lógica das CEBs é a partilha, a participação, a solidariedade, a fraternidade. Um modo inteiramente novo de se relacionar uns com os outros, de construir um modo diferente de produzir e comerciar os meios necessários para garantir a sobrevivência. Enfim: uma nova Sociedade, uma nova Política, uma nova Sociedade, uma nova Igreja. Veja os exemplos da Economia Solidária, a prática do escambo, de compras coletivas, dos mutirões, dos 16o mil voluntários que prestam serviços a milhões de pessoas em suas entidades ou Ongs.
Já no Estado-Patrimonialista a lógica é bem diversa. Aí reina o individualismo, seja ele pessoal ou grupal. È a lógica do mercado, da competição e concorrência, do mercado, do capital.
Como ser honesto, ético, humano num mundo impregnado dessa lógica. Se eu der um “bonzinho”, outros me eliminarão, não sobreviverei. Daí importa que eu seja “o rei”; ou pelos menos, “amigo do rei”.
Num regime patrimonial a corrupção faz parte do “pão-de-cada-dia”. A impunidade campeia de alto a baixo. O que se exige de todos é que esteja no Poder, com parte do Poder. Uma vez no Poder fazer tudo para nele permanecer, ampliá-lo. Os adversários têm que eliminados, ou, no mínimo, isolados ou enriquecidos. Essas foram às orientações que Maquiavel deu ao príncipe do qual fora vassalo e servido, e, depois, descartado! Hoje se fala “assessor”.
Como sanar essa situação. Extirpá-la de todo, creio não ser possível. Pelo menos estreitar os limites, o campo de sua ação, me parece viável.
Além da infra-estrutura básica para se viver bem investir na Educação, em todos os seus níveis, para ser mais humano, ético, republicano.
O que vale lá fora, na Sociedade, vale também na Igreja!!
As CEBs são verdadeiras escolas para se crescer na Fé e no exercício da cidadania ativa.
Se um novo mundo é possível e se faz necessário; o mesmo pode-se dizer da Igreja: uma nova Igreja é possível e se torna, também, necessária. Só os alienados políticos não vêem; só os míopes na fé não percebem.
“Quem tem ouvidos para ouvir, que o ouçam” (Mt 13,9).

Frei Cristóvão Pereira ofm.

Nenhum comentário:

Postar um comentário