sábado, agosto 06, 2005

Artigo do Frei Cristóvão:

ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA

“O Espírito vivifica, a Letra mata”(2Cor, 3,6)

Muito feliz e muito atual o tema-eixo que norteou todo o processo preparatório e o próprio 11 Intereclesial de Base, realizado, mês passado, julho: 2005, em Ipatinga, diocese Itabira-Coronel Fabriciano: “Espiritualidade Libertadora.”
Ecologia-Mística-Ética, podem ser consideradas as três megatendências que pervadiram o final do séc. XX, e perduram através do séc. XXI. Por aí sopram os ventos da História. Por estes vieses um “Novo Mundo torna-se possível” e, mesmo, necessário. Por essas vias uma nova Igreja é possível; torna-se necessária, como rezamos e pedimos, tantas vezes, durante o 11 Inter. Em linguagem teológica, fala-se em “Sinais dos Tempos”, verdadeiros “lugares teológicos”.
O que passa e acontece no mundo, repercute, inevitavelmente, no interno da Igreja, na maneira do como evangelizar, do como propor o evento Jesus de Nazaré, sua práxis, ao homem de nossos dias. Estamos, por assim dizer, no coração da temática: o que se entende por uma fé inculturada. E, como os termos ou conceitos se desgastam com o tempo e com o seu uso, hoje já se fala de uma “Fé Encarnada”.
Transpondo-nos para o nosso tempo: como entender o que venha a ser uma “Espiritualidade Inculturada”? ou, então: uma “Espiritualidade Encarnada”?
No meu livro: “Anemia Antropológica e Alternativas”, Graf.Colégio Frei Orlando, BH:2003 trabalhamos com mais vagar sobre o que se entendia e sobre o que se entende por espiritualidade nos dias de hoje. Aliás, o tema é constante nas publicações mais especializadas.
Nesta reflexão vamo-nos ater as CEBs: como a nossa gente, o povo da “CMINHADA”, vive sua espiritualidade. O que, afinal, os mantém de pé, sempre em marcha, não obstantes, as pedras do caminho, seja na própria Comunidade, na Igreja e no Mundo, na Sociedade nos quais estão inseridas e dos quais são partes integrantes. Qual a energia, a força, o axé, o gás que os fazem tão esperançosos e resistentes?
Espiritualidade: vem de “espírito”. No hebraico temos “nefesh”, “ruah”; no grego: “vous”; no latim:”spiritus”; já entre nós: “espírito”. Os matizes semânticos do termo vão variando, segundo o contorno cultural que o envolve; mas, é possível captar um consenso de fundo que vai perpassando os tempos e suas variações.
Pode-se dizer que sem espiritualidade não há utopia, sonho, vontade de lutar, der mudar, seja a si mesmo quanto as coisas, a sociedade, as estruturas que as suportam. O mesmo pode-se dizer do agente de pastoral, daquele que exerce qualquer ministério na Igreja, na Comunidade. Do Papa ao sineiro que convoca a Comunidade; sem espiritualidade, se transformam em “Funcionários do Reino”, segundo a famosa obra que provocou tanta reação de quando de sua publicação, “Os Funcionários do Reino”.
O quê é espiritualidade? Marcelo de Barros, monge beneditino, tem escrito muito sobre a temática. Em Ipatinga, na Coletiva do dia 27, num momento de inspiração, assim a definiu: “É o agir de Deus em nós. É a energia, o espírito de Deus que movimenta, agiliza o que há de bom em cada um de nós “.
Ampliando suas reflexões, diríamos que é o grude, a argamassa, o cimento que mantém as coisas, as pessoas, os grupos, os movimentos, as pastorais, aglutinados, articulados, organicamente unidos.
Falar de “Espiritualidade Libertadora, explicava Marcelo, é uma redundância, o mesmo que dizer que” a roda é redonda “!”.
O que quer dizer, portanto, que toda espiritualidade é libertadora; caso não o seja, não é espiritualidade; cheira à mistificação, à alienação, à fuga, à manipulação.
Claro que há uma variedade de espiritualidade, como vários e diversos os caminhos que conduzem a Deus. O que não se pode perder de vista é a sua força transformadora, sua convocação à mudança, seja pessoal, seja coletiva, grupal e sócio-político-econômica. Sua dimensão profética, sua verve revolucionária.
Exemplos na Bíblia são abundantes; veja, a titulo de ilustração, o capítulo 11 da carta aos Hebreus. Paulo de Tarso, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, o apóstolo dos leprosos S. Damião, Gand, Hamaskhul, Tereza de Calcutá, D. Helder Câmara e tantos, tantos outros.
No dia-a-dia, no cotidiano de nossas vidas deparamos e esbarramos com tanta gente boa, honesta, solidária movidas pela “espiritualidade-de-gente-boa”, como José, esposo de Maria, como explica L.Boff na sua obra sobre José: “São José: a personificação do Pai”, Campinas, SP: Verus Editora, 2005.
Espiritualidade seria como ver a realidade a partir do Espírito de Deus, do Deus da Vida, da Justiça, da Paz, que foi o Deus de Jesus de Nazaré e, portanto, ´Deus dos que se põem a caminho no Caminho do rabi de Nazaré.
Numa visão ecumênica e do “diálogo inter-religioso” uma pessoa espiritualizada é toda pessoa, boa, honesta, ética que coloca o melhor de si em prol da Vida, de sua preservação e de sua defesa. Numa palavra: todo humanista é movido por uma espiritualidade, por um fogo interior que o faz acreditar e lutar por um Mundo Novo.
Ora, se considerarmos o Marxismo como um Humanismo, todo marxista convicto e coerente é uma pessoa movida por uma espiritualidade!!
Para nós cristãos: o compromisso com e por um mundo segundo os desígnios, o plano de Deus. Na Bíblia, no Novo Testamento, fala-se em Reino de Deus. O centro da práxis de Jesus. O núcleo duro de sua Fé.
Frei Cristóvão Pereira ofm.

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