sábado, agosto 06, 2005

Artigo do Frei Cristóvão.

Leia abaixo o arquivo enviado pelo frei Cristóvão sobre o PT.

ESTOU DE RECESSO!!

- É possível resgatar PT? Refundá-lo?!

A pústula supurou! O remédio é espremer o resto do carnegão e fazer uma cirurgia para extirpar as raízes danosas! Analistas há que afirmam, talvez, seja este o bem que o PT poderia prestar à nação, ou melhor dizendo, ao povo brasileiro.
Corrupção nos Bingos, nos Correios, “Mensalão, Millor Fernandes prefere falar em ”Mensalama “, o “Cuecão”, o “Dizimão”, lavagem de dinheiro, corrupção passiva no INSS do RJ, para ficar nos maiores. E Deus sabe o que poderá vir pela frente!
Meus confrades me perguntam se ainda estou no PT!. Respondo que estou de recesso. Recesso ideológico-programático! As águas estão por demais agitadas, turvas para se tomar uma decisão mais radical. Em todo caso há muitos “fdpts” no PT que não merecem mais minha confiança!!

A origem de tudo: Uma “Cultura Patrimonialista” (as raízes)

O Patrimonialismo identifica o público com o privado. É um vírus político que foi inoculado em nosso sangue desde priscas eras. Vem de nossos colonizadores. A ausência de um espírito republicano perdura até nossos dias.
Relembro o nosso confrade frei Egídio, de quando lúcido. Ele gostava de uma pendenga quando sentávamos juntos lá no refeitório; sejam elas de cunho teológico (sua ojeriza dos Calvinistas); e mesmo de cunho histórico: “Os portugueses fizeram um grande mal ao Brasil. Cá chegaram só para roubar”!
De fato, uma boa parte da tripulação não era flor que se cheira! Bandidos, ladrões, criminosos, gente da raia miúda, dos quais a Corte queria se livrar. Uma espécie de limpeza de arquivo.
A colonização portuguesa se diferençou muito da espanhola, da criação do Novo Mundo na América do Norte. Não avançaram mais de 60 km da costa. Em caso de ameaças de maior porte tinham as galeras ancoradas na costa, o mar. No mais: pilhar escolas? Só nas Missões Jesuíticas. Mais tarde, foi proibida a instalação de qualquer indústria. Isso como exigência do Reino Unido que dominava o mundo civilizado ocidental de então através de suas Esquadras.
Fomos educados e formados na escola e na arte de “roubar”! De pilhar, de levar sempre vantagem; de se enriquecer não importando os meios! Este foi o inconsciente coletivo que nos foi impingido.
Daí esta confusão, esta identificação do público com o privado. De fazer da Prefeitura, do Estado, o meu latifúndio. Se eu não sou o rei, faço de tudo para ser amigo do rei!
Temos a mentalidade do “barnabé”; do funcionário público apadrinhado! O que busco é um emprego público, com bom salário e nada de trabalho!
As raízes do furúnculo só serão extirpadas com uma boa cirurgia, através de um longo processo educativo, com mais justiça social, reformas de base, o que demanda um bisturi bem afiado e uma vontade política embasada num apoio popular expressivo. O que a elite não quer e faz de tudo para boicotá-las.

O sistema em si é perverso, injusto e aético
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O sistema capitalista fundamentado no mercado, no lucro, na concorrência e na eficiência, numa sociedade assimétrica como a nossa, só tende à corrupção, ao suborno, à impunidade. Burlar as leis, usar de propinas, “comprar fulano”; conquistar o poder, não importa por quais meios, e nele se perpetuar não importa como!
Mais tarde, Maquiavel, tornar-se-ia conhecido com sua obra “O Príncipe”, onde desenvolve estas artimanhas.
Já Max Weber, em seu famoso discurso sobre “Ciência e Política – Duas vocações”, faz a distinção entre a “Ética de Princípios (de Convicção) e a Ética da Conveniência; deixando entrever que no pragmatismo do cotidiano do mundo da política há como que uma cortina de fumaça que ofusca a transparência da retidão nas e das decisões políticas. Na verdade o que se diz, se discute e se decide nos plenários das Câmaras e Congressos, nas mais das vezes, são encenações, teatro, uma vez que tudo já foi deliberado nos bastidores ou na calada da noite.
Corrupção sempre haverá e o poder se deixa corromper, facilmente, em se tratando de dinheiro, de nomeações ou barganha de cargos.
Uma Democracia Social e Participava como contraponto a uma Democracia Liberal, Formal não deixa de ser um instrumento para diminuição da margem da corrupção e da impunidade. As chances de punir os corruptos se ampliam.
Não podemos esquecer que o luxo das cortes colonizadoras foi instituído e gozado acima do sangue, da morte de milhões de escravos e gente do povo colonizado!
Afinal, é possível ser uma pessoa honesta, ética, cristã num mundo onde o capital é que decide quem é quem? Nadar contra a correnteza exige muito treinamento!
Um outro mundo é possível e se torna sempre mais necessário, se nós o quisermos e nos organizarmos para tal. Um novo paradigma civilizacional desponta no horizonte da História, no qual o “homo solidarius” será maioria e terá as redes do poder em mãos.

O quê fazer, relembrando Lênin?

Antes de tudo, não descrer nas instituições democráticas. Nossa Democracia é frágil, vulnerável. Adolescente. As pesquisas estão aí: 78% acreditam que existe corrupção no governo Lula; 64% dizem que a maioria dos políticos do seu partido está envolvida em casos de corrupção e 67% pensam que o PT pagou o chamado “mensalão”; 46% desaprovam o Congresso Nacional e os políticos. (Comparato F.K., Opinião, Folha de S.Paulo, A3, 05/08/2005. Cifras por demais alarmadoras!) O processo de consolidação de nossa democracia se impõe de per si.
A estratégia da Oposição é perversa: aniquilar o PT, preservar o presidente Lula, cuja política econômica é do agrado da elite oligárquica financeira e industrial. José de Alencar é uma incógnita. No período eleitoral de 2006, torra-se o atual presidente e busca-se um candidato de consenso. Fala-se em Nelson Jobim.
“Pensar globalmente e agir localmente”, é o princípio básico da Ecologia. A. Gramsci falava de “Revolução Permanente” e de “Guerra de Posições. A primeira é a estratégia, onde se quer chegar; já a segunda (Guerra de Posições - Guerra de Trincheira), seriam as táticas a serem aplicadas segundo as circunstâncias. Perde-se, por vezes, uma batalha para não se perder a guerra.
A Revolução Permanente supõe uma estratégia de longo alcance, planejamento, avaliação, condições objetivas e subjetivas para a virada da mesa. Tudo isso se dá através da “Revolução Cultural”.
Hoje já se fala em “Revolução Global” e “Revolução Celular”. A “Revolução Celular” começa comigo, com você e meu entorno vivencial; com a diferença de que somos nós que vamos formando uma bola de neve e a direcionamos na direção que queremos. A bola-de-neve, no seu avolumar-se cria as condições coletivas, objetivas e subjetivas para a virada da mesa.
Não podemos aceitar a distinção falaciosa, entre Política e Economia, defendida pelo Governo e por analistas. Ela não procede numa situação brutal de desigualdade social reinante no país. Esta dissimetria tem-se intensificado com a implantação da Política Neoliberal, desde a década de 70. A Revolução Global acontecerá através de uma ação política planejada, largo apoio popular.

Alternativas de ação
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Além de consolidar as instituições democráticas, podemos apontar algumas alternativas para a superação da crise:
- as Cpis para apurar o desvio de dinheiro público, devem ser levadas em frente e não acabar em mais uma pizza;
- a pressão social com a mobilização do povo, mediante a mediocridade do atual Congresso, é indispensável e insubstituível;
- a Reforma Política, a mudança da Legislação Eleitoral, incluindo a Reforma Partidária, fidelidade partidária, representação proporcional no Congresso; financiamento público de campanha, revisão do regime presidencial;
- fim do dispositivo constitucional da reeleição e do mandato de 5 anos.
È possível chegar-se a isso com este Congresso? Claro que não! São “experts” em votar em própria causa!
Mas, afinal, alguma coisa deve ser feita. Em 2006 teremos eleições majoritárias! O que se conseguir antes constituem os primeiros passos para se chegar a mudanças mais profundas. Volta-se a falar de novo na implantação do Parlamentarismo, no qual a queda do primeiro ministro acarreta a dissolução do Congresso e convocação de novas eleições!
Há reivindicações de mudanças constitucionais que vão se aflorindo na opinião pública:
- introduzir no dispositivo da Lei, formas de plebiscito e de referendos quando temas de interesse geral estejam em jogo. O que é de interesse de todos deve ser decido por todos. São formas para ampliar a participação do povo, a fonte legítima de todo poder. Ele é o autor do Poder; os políticos, funcionários públicos, atores. Assim era costume na Igreja originária no tocante à escolha do papa, dos bispos e coordenadores das Comunidades.
Mediante à concretização destas mudanças, resolvi entrar em regime de recesso!!
Frei Cristóvão Pereira ofm.

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